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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Uma política externa a meter água.

prolibertate, 13.02.20

Europa. Atlântico. Lusofonia.

Os três históricos pilares da visão portuguesa de mundo não representam opções governamentais ou prioridades circunstanciais; não estão sequer hierarquizados de uma forma definitiva, e ainda bem que tudo isto assim é. Não dependem de líderes eleitos, nossos ou externos, e ainda bem que assim é. A dimensão geopolítica que os sustenta é o que fez de um país que na extensão terrestre é semelhante ao Guatemala e à Islândia e bem menor que Noruega, Roménia ou Bielorrússia aquilo que hoje é na dimensão internacional: a porta do Atlântico para uns e a porta da Europa para outros.

Não é também novidade alguma que esta ação não é estática, quer pensemos a dez, vinte, cinquenta ou cem anos. Hoje, pelos seus projetos e visões políticos, democráticos e económicos, a Europa torna-se o eixo natural - ou, pelo menos, mais visível - do nosso dia-a-dia além fronteiras. É aqui que deve estar o nosso esforço máximo que sustente o improvável sucesso histórico de Portugal e dos portugueses pelo mundo. Ao ponto que este enquadramento moderno se enraizou, nos acelerou o desenvolvimento e se afirma hoje como maior sustento da nossa estabilidade política, será difícil desvalorizar.

Esquecer o que o trio inicial ainda hoje vale é também penalizar a influência de Portugal no contexto europeu. A geografia e a história deram-nos mais de 800km de costa atlântica, dois arquipélagos com posições estratégicas relevantes economica, militar e politicamente. Deram-nos parcerias na região do Mar do Norte com mais séculos do que chegamos a imaginar para esta região, também a mais antiga aliança do mundo com o país europeu que mais partilha e até excederá a nossa visão atlântica; uma língua oficial cujo número de falantes que representará cerca de 25 vezes daqueles que Portugal habitam.

Longe de mim pensar que isto é ignorado, mas a Política esquece demasiadas vezes que só teremos um papel relevante - até desproporcional, felizmente - na Europa se nos afirmarmos como país que é a ponte mais natural para a África (não limitada à Subsaariana, mas tendo aí a sua maior força), ou para as Américas. É também por isto que os países da União com quem devemos partilhar estratégias são aqueles que já nos parecem menos naturais pela sua condição económica ou latitude, como Espanha, Irlanda, França, Bélgica, Países Baixos, Dinamarca e Suécia. É partilhando visões de médio e longo prazo com estes, porque esta política não se faz à pressa, que Portugal poderá potenciar as qualidades que a sua abertura ao mundo lhe deixou. É partilhando intensas relações e visões com estes Atlânticos tão distintos entre si que Portugal poderá ser o Estado que a sua extensão e posição territoriais nunca lhe projetaram. A política externa não se faz com pessoas, faz-se com instituições, e deve ser brutalmente pragmática: a nossa devia meter mais água.

 

RG.

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Foto: Blog Aventar.

 

 

 

Cacico, logo existo.

prolibertate, 14.01.20

Faltavam ainda dias consideráveis para as Eleições Diretas do PSD quando fiz uma previsão - pessoal e intransmissível -  daquilo que seria o resultado neste passado sábado no meu Distrito, Viana do Castelo. Para isto, para além de já largos quanto baste tempos de intervenção, bastou-me acompanhar os anúncios de trincheiras escolhidas pelos apoios locais capitais (no sentido matemático da coisa, só) no caminho para o ato eleitoral. Só queria ter falhado por mais, mas este sindicar de direita é consistente.

O universo de votantes é curto, incomparável com qualquer ato eleitoral externo ao partido, o que alimenta as bolhas e facilita a organização. Por isso, é importante recuar a reflexão ao momento em que um militante se filia e perceber “Porquê?”. Serão ainda relevantes aqueles que procuram um partido ao invés de serem arrastado para este? Mais que nunca. No PSD, o voto livre, não organizado, terá sido quarto classificado deste ato eleitoral. Isso não só indica que os maiores problemas do partido não estarão sequer limitados à ação, métodos e faces políticas anacrónicos a nível nacional, mas chegam principalmente dos mais estreitos meios onde se geram dependências do poder, vícios de manipulação eleitoral e, pior, receios de que os bons quadros venham estragar o que “está tão bem arranjadinho”.

Os arranjinhos refletem-se num partido mendigo de projeto (não de ideias), num partido mendigo de quadros (por opção e estratégia de poder), num partido onde se recusam debates e num partido que chega a assumir a relação com o outro mais relevante que a sua visão. Modéstia comparte e sem arte.

Espero que seja a última vez que parto de política não-Política para aqui escrever, por saúde própria, mas não pode ser assumido levianamente que um qualquer candidato consiga mais importantes apoios através de contactos com x dirigentes por localidade do que a falar para as multidões que nele se podem rever. Não é por ser algo interno aos partidos que ganha selo de tabu político ou inevitabilidade. Menos preguiça, e mais olho para o “depois de amanhã”. Não peço muito.

 

RG.

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De quem é o voto dela?

prolibertate, 28.11.19

Em quem votaste a 6 de outubro de 2019? No partido com que mais te identificas? No candidato a primeiro-ministro que achas carismático, no cabeça de lista reputado do teu círculo, noutro candidato? Pois, nem sei bem.

Isto a propósito da ensurdecedora crise nacional e muito portuguesa que se instalou à custa de uns 0.4% da Assembleia da República, representantes de pouco menos de 23 mil votos no círculo eleitoral de Lisboa, e uns 99.6% do círculo eleitoral do Twitter. Alguns eleitores do Livre poderão hoje arrepender-se do voto - não sei se o fazem ou não, nem é para mim relevante - não podem é dizer que foram enganados em campanha eleitoral. Por outro lado, eleição feita, é verdade que nos lugares de representação se faz muito da política, cada vez menos e mais pelo mediatismo, mas, acima de tudo o resto, convém saber quem se representa e por que causas. Se a agenda de um deputado único não corresponde à do partido, a ruína começou quando este foi escolhido para uma candidatura de destaque.

Não vou mais por aí. Se por muitas ocasiões podemos ler, pensar ou escrever sobre reforma do sistema eleitoral, a última vez que surgiu um mote tão pertinente, ainda o queijo limiano era limiano. Sendo verdade que os sentimentos, reflexões e análises que devem servir de base a um voto dependem muito de um fatalismo geográfico, de onde a nossa mesa de voto se lembrou de brotar, também o é que a nossa Democracia passa hoje por pré-fabricada, obscura e imposta por uma pseudo-aristocracia pouco nobre.

Partindo de um princípio de honestidade política, i.e. de que a candidatura individual de Joacine enquanto “all-in” do Livre não considerou interesses aritméticos ou eleitoralmente pragmáticos, mas sim conteúdos coerentes, o cenário pede clarificações. A responsabilização pública na Democracia representativa não é de caráter opcional. Candidatos a deputados, ainda que na mesma lista, não são nem devem ser uniformes ou meros ecos partidários, mas devem sempre lealdade a um programa e prioridades políticas apresentados aos seus eleitores.

O mesmo dilema se vive de uma forma extraordinariamente distinta e mais grave nos grandes partidos, até mais no PSD do que no PS (top desalinhados, via hemiciclo). A disciplina de voto faz todo o sentido em matérias claramente(!) inscritas no programa eleitoral - seja este o pessoal, o de círculo ou o partidário - ou naquelas das quais depende o interesse do país de uma forma estrutural e urgente. Tolerar voto preguiçoso, seguidista e não exigir que cada deputado tenha um pensamento próprio e publicado para cada matéria relevante (do qual deverá abdicar para efeitos de representação, quando claros) é permitir que a cada quatro anos a pobreza do debate e do QI per capita naquela câmara afaste até o eleitor mais interessado. Se aí chegarmos, é bar aberto para aqueles nossos condutores.

Não é por discordar quase sílaba por sílaba da ação política da deputada, no conteúdo e cada vez mais na forma, que defenderei que se lhe possa condicionar a última palavra em cada votação no Hemiciclo. Todos os restantes envolvidos devem ficar na infeliz condição de sentir a responsabilidade por esta eleição sem conseguir mais definir.

O peso na consciência não se decreta: até à próxima eleição, a deputada Joacine Katar Moreira tem direito de voto e só a própria pode abdicar dele.

 

RG