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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

O Futuro: à Direita e da Europa.

prolibertate, 13.12.19

A Europa já nos deu mais motivos para sorrir. Também já nos deu mais motivos para chorar. Já teve mais vitalidade, prosperidade, e também já esteve menos desacreditada. Ontem não ficou melhor. Mas a vitória de Boris e o Brexit podem ser o início de uma reflexão premente sobre a Europa e a semente para o renascimento da Direita Europeia, que tem andado à deriva entre o puritanismo e o reacionarismo.

 

Dito isto, ao contrário do que muitos peritos do debate público afirmam, importa que dizer que Projeto Europeu não está falido. O modelo Europeu não está falido. Olhemos em volta: a Europa depois de séculos de história em que falhou e venceu, construiu o projeto comum mais ambicioso da história, construiu o modelo que permitiu, num espaço de 70 anos, que cada geração tivesse oportunidades que a anterior nem sequer pôde sonhar. A Europa teve forma de Impérios, andou em guerras entre si durante séculos, e foi derrotada por si própria. Mas hoje, temos o modelo social mais ambicioso do planeta, à custa da constante correção de todos os erros que cometemos. A Europa construiu um modelo tão próspero que nos faz, hoje, ter urgência de soluções para problemas que ainda nem sentimos; problemas esses que surgem apesar de toda a sensação de conforto e invencibilidade que foi fomentada. E é aqui que importa focar: o projeto Europeu falhará, sim, se nos mantivermos imóveis e não procurarmos ter uma Europa mais próxima dos cidadãos, uma Europa mais democrática e uma Europa que se mostre, como é, aos seus cidadãos.

O cidadão comum continua sem saber, exatamente, qual é a influência que a União Europeia tem na sua vida. O cidadão comum continua a votar nas eleições europeias - os que votam - por um mero costume e rotina. E, por sinal, vota por clubismo partidário.

Precisamos de uma União Europeia em que as suas instituições desfrutem de uma legitimidade democrática. Precisamos de uma União Europeia em que as áreas da atuação estejam bem definidas e assinaladas. Uma União Europeia mais orgânica, transparente e descentralizada. Não precisamos de uma União Europeia com poderes de regulação em todas as matérias. Precisamos de uma União Europeia que se foque nas áreas onde ter uma voz comum é imperial como na política de imigração ou como na ajuda que fornece a resoluções de problemas históricos como o conflito Israelo-Árabe. Precisamos de uma União Europeia que, usando uma expressão coloquial, "até possa mexer em pouco, mas mexa bem". 

O Brexit e a quantidade de partidos eurocéticos eleitos pela Europa fora são um alerta. Um alerta de que aquilo que damos como certo: os valores, as instituições, o modelo social; tudo isso não é garantido per se.

Estreita a necessidade de reformas profundas no seio da União Europeia; uma União que se quer uma União de Estados, mas também de Cidadãos. E para chegarmos a essa União é imperativo que as respostas que a União quer dar sejam em proximidade com os eleitores, de forma a que sejam perceptíveis e legítimas. Sendo que o "legítimas" é o mais importante disto tudo. É verdade que a União Europeia tem o parlamento mais democrático do mundo. É, também, verdade que em muitas áreas a União Europeia goza de uma democracia louvável. Contudo, não podemos querer uma democracia pela metade. Quantos Europeus conheciam Ursula Von Der Leyen quando votaram a 26 de maio? Deixo para reflexão.

In posterum, a pior coisa que enquanto Europeus, ou enquanto Europeístas, podemos fazer é usarmos, constantemente, o argumento "Mais Europa!" para todos os problemas que surgem. Se calhar umas vezes é «Mais Europa!», com uma política que tem de ser, irredutívelmente, comum; outras vezes é «Mais Soberania!», com uma pluralidade necessária e saudável. E há outra coisa essencial que devemos evitar: descartar toda e qualquer culpa da União Europeia no crescimento dos partidos eurocéticos e no Brexit. Seria arrogante e partenalista, para não dizer irresponsável, achar que toda a culpa está "no outro lado", que "o eleitorado é infantilizado", e que o imobilismo e elitistismo europeu não tem consequência na confiança que o eleitorado deposita em partidos populistas.

Seja como for, o projeto Europeu, apesar de não estar morto, precisa de ser repensado. E talvez o Brexit seja responsável, não pelo início do fim, mas pelo início das grandes reformas na burocracia Europeia; quiçá esta possa converter-se na sua raison d’être.

 

Voltando à noite eleitoral britânica: ontem, acredito eu, aconteceu o melhor para a Europa. É importante não esquecer que o Brexit será sempre algo negativo e - esperemos nós - será lembrado como uma mancha negra na história do projeto Europeu. Há também que relembrar que as intenções do mesmo não foram, propriamente, as melhores - não podemos, nem devemos, ignorar que coisas como a desinformação, a xenofobia e a questão da imigração contribuíram para o desfecho do referendo de 2016. Contudo, passado três anos, com o contexto que temos até porque não há outro, o melhor desfecho possível era este. Este é o desfecho que permite - tanto a nós como aos nossos amigos britânicos - arrumar toda esta confusão e seguir em frente. Este é o desfecho que - também importante lembrar - acaba com as dúvidas sobre a legitimidade democrática do Brexit. Enquanto Europeísta convicto, fica um sentimento de tristeza por ver os Britânicos partirem, porém, sendo simplista, era isto ou alimentar as feridas.

 

À propos de Boris. Devo dizer que nos motivos da minha admiração por Boris, o Brexit vem no fim da lista. Acima de tudo, o que eu espero é que traga à Direita respostas para os problemas que os ideólogos têm desvalorizado.

O establishment político Europeu não deixa margem para grandes otimismos. À Esquerda e à Direita a moderação e a sensatez têm estado perdidas. Os supostos moderados de cada lado do espectro têm preferido aliar-se à, ou sucumbir ao populismo da, sua extrema.

Por isso é que a vitória de Boris - e a consequencial reforma dos Tories - pode ser o renascimento e um modelo para o futuro da Direita Europeia. Boris pode trazer um discurso próximo das pessoas: pragmático, conciso e consciente. Boris pode trazer uma Direita que não desvalorize as desigualdades ou a necessidade de um Estado que proteja os cidadãos em vez de os atirar à anarquia. Uma Direita que, sem nunca esquecer que o Estado deve ser pequeno, não sucumba a dogmas libertários de uma economia totalmente desregulada. Uma Direita que não se cole  à sua extrema por ser mais anti-esquerda do que Direita - e até, se possível, a neutralize. Uma Direita que não seja imobilista social. Uma Direita que saiba para onde ir, que tenha um fim e um trajeto para lá chegar. Em suma, uma Direita popular, humana, e capaz.

Faz falta a Direita: Direita essa que se perdeu em lutas reacionárias nos costumes e em utopias como a do mercado conseguir, sozinho, resolver todo e qualquer problema social ou financeiro. Sobre a persona de Boris, quero só ressalvar ainda que: nos costumes, o mesmo pode trazer a Direita para a atualidade - não esquecer que Boris, há já quinze anos, ficou praticamente isolado dentro do partido a favor da união civil entre casais homossexuais. Também convém lembrar que Boris Jonhson foi mayor de Londres - uma das cidades mais multiculturais da Europa. E na economia, Boris, mais do que doutrinas, traz eficiência - aqui até podemos pegar num exemplo recente: Boris Jonhson deixou cair o objetivo de baixar o imposto de pessoas coletivas (IRC) de 19% para 17% em prol de um maior investimento no Sistema Nacional de Saúde (NHS). Isto talvez soe estranho a quem costuma endeusar o mercado, mas não soará estranho a quem está mais preocupado com a eficiência do Estado.

Boris não é perfeito. Há, por exemplo, um claro problema no seu discurso sobre a imigração que eu espero que termine com o acontecimento do Brexit. E chegou ao poder - que o próprio acredita(va) estar-lhe destinado desde tenra idade - à custa de uma causa que nunca tinha sido sua antes; Hipocrisia, dirão alguns. Perspicácia, dirão outros. Quanto a mim, agrada-me que Boris traga uma ideia e um projeto para o futuro. Que traga poder de decisão. Que seja um líder.

 

Rome ne s’est pas faite en un jour, mas esta é a Direita que eu, ironicamente, sonho; e que espero que toda esta turbulência numa Ilha historicamente estóica possa trazer. Com a devida subscrição pela tradição conservadora britânica: sou mais cético que otimista e mais pragmático que idealista; ainda assim, com o Brexit e com a vitória esmagadora de Boris Jonhson - diga-se de passagem que é a maior vitória desde Thatcher - acredito que uma nova fase começou na política europeia. E, com isso, espero que a Direita se possa levantar da penumbra de extremismo, reacionarismo e puritanismo onde se meteu. E, espero ainda, que a Europa possa deixar o seu posto de - para ser simpático - "gigante adormecido". 

 

Luís.

 

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prolibertate, 09.12.19

O mundo já esteve melhor. A direita também. Ameaçada por todos os lados, sai de uma década de cão e entra nos anos 20 sem um rumo discernível. Fazer a crónica dos desaires que nos trouxeram aqui cabe aos historiadores mais do que aos esbeltos participantes deste blog, mas sobre o futuro todos temos uma palavra a dizer. 

Enter Boris. O furacão oxigenado que atingiu Westminster no verão soma defeitos que desqualificariam o político normal: é inconfiável, não demonstra particular talento para o trabalho burocrático de governar e o adjetivo “buffoon” acompanha-o com frequência, facto a que não é alheia a sua propensão para se encontrar em situações visualmente ridículas — mas, ao mesmo tempo, todos nós ficamos suspensos no ar enquanto agitávamos uma bandeirinha nacional em algum momento da nossa vida. Por outro lado, o cabelo propositadamente desgrenhado, a dicção diletante e a cultura clássica combinam-se para formar uma bizarra persona churchilliana cujo carisma vai carregando os conservadores pelo nevoeiro da política britânica. 

O sucesso de BoJo não é explicável sem cometer uma traição às mais básicas regras da escrita e contrariar o primeiro parágrafo, porque aquilo que distingue Boris de May ou Cameron é o facto de responder às causas da decadência da direita europeia nos últimos anos: o discurso estritamente economista, que se ultraliberalizou por preguiça mais do que por crença; a incapacidade de reconhecer os derrotados do sistema globalizado, sobretudo no que respeita às desigualdades e ao descontentamento que geram; e a falta de um símbolo, um ícone cultural e popular que lhe sirva de horizonte. 

Boris é um liberal à direita. Não no sentido de querer privatizar o ar que respira, mas por ter tido uma educação cosmopolita, junto da elite tecnocrática de Bruxelas — a que o seu pai pertenceu — , por ter sido o popular mayor de Londres, a cidade-símbolo do multiculturalismo europeu, e por ter uma carreira pública, na política e na imprensa, que fala por si (sendo o melhor exemplo o seu voto favorável à união civil de casais homossexuais, em 2004, que o deixou praticamente isolado dentro do partido). Na economia, secundado pelo talentoso Sajid Javid, o seu programa passa por destruir o legado austeritário de Cameron e George Osbourne, aproveitando a herança de défice controlado e o clima de juros baixos para lançar um ambicioso plano de investimento público, com o objetivo de ganhar eleições e relançar uma economia que todos esperam que se vá despenhar com o Brexit. 

Já hoje, a grande vitória de Boris é ser o primeiro político do centro-direita a recuperar um discurso popular, que não renega a classe média e oferece mais do que contas certas como visão para um país. É inegável o serviço que o liberalismo prestou à democracia nas décadas de 70 e 80, mas depois da crise de 2008 e dos duros anos que lhe seguiram, a direita parece ter esquecido que a sua posição natural é a defesa do small state, que protege os cidadãos dos políticos, e não o Estado mínimo, que vende os cidadãos a entidades abstratas. A proposta passa por recuperar a ideia de que a política tem valores e que a ação se deve guiar por eles — seja contra os marxistas, seja contra salários estagnados. 

Numa entrevista recente, Javid notou apropriadamente que eleger Boris não é exatamente conceder um quarto mandato aos Conservadores, mas eleger um novo governo e uma visão alternativa para o futuro. Essa alternativa, que em larga medida é uma terceira via entre o populismo e o establishment que se digladiam na Europa continental, mas é sobretudo uma reinvenção do establishment para uma sociedade que justificadamente se fartou dele. 

A vitória dos Tories é também importante porque do outro lado está a promessa de um retorno às trevas comunistas. Como sempre acontece quando a sociedade dá um salto existencial, a política oferece uma alternativa de obscurantismo, crueldade e miséria. Corbyn não é uma expressão de conservadorismo, mas de reaccionarismo, prometendo que é possível, à força da máquina estadual, voltar a um tempo mais simples e confortável. Não é, claro, e a própria tentativa é perigosa. 

Como quase sempre, cabe aos conservadores fornecer uma ideia para o futuro. Entra aqui o Brexit, que é uma péssima ideia de acordo com todos os indicadores, mas também o ícone que faltava à direita. O Brexit lembra, por maus processos, aquilo que é a direita: o apelo à identidade nacional, a revolta contra burocracias nebulosas e uma atração quixotesca por más decisões tomadas para conservar um conceito peculiar de honra. 

Há riscos. O Brexit não nasceu de intenções puras, mas de uma inclinação para formas perigosas de política. O Brexit Party, última versão institucional do bando liderado por Nigel Farage, perdeu a sua raison d’être porque o partido de Boris Johnson a adotou em tudo o que era democraticamente aceitável. As propostas relativas à política de imigração traem toda a boa tradição humanista e tolerante da Europa e, ainda que estejam longe de Orbán e Salvini, preocupam. 

Boris cresceu para governar. É aparentemente tudo aquilo que quer fazer desde que tinha idade para pensar no assunto. E tem levado o assunto a sério: em menos de 100 dias como PM negociou um acordo que os cronistas do costume nos garantiram ser impossível a qualquer prazo e conduziu uma campanha livre de gaffes, ao ponto de se tornar aborrecido. Aliás, numa entrevista à Spectator mostrou estar disposto ao ultimate sacrifice pela pátria, revelando que tinha deixado de beber desde que chegou a Downing Street e que só o voltaria a fazer quando o Reino Unido abandonasse a União Europeia — um estóico impressionante. 

No entanto, há uma pergunta que fica: pode um país que namorou a extrema-direita durante vários anos chegar à ponta do desfiladeiro liderado por Boris Johnson e construir uma ponte em vez de se atirar para o abismo? Pode. E mesmo que falhe, esta é a única via que dá uma hipótese. É por isso que apoio Boris.

 

João Diogo Barbosa

 

photo-1571842705650-728fd132c62f.jpeg                                                                                                                                                            Photo by Jannes Van den wouwer on Unsplash

Epítome de, e a, Churchill.

prolibertate, 30.11.19

A 30 de novembro de 1874, nascia um dos maiores Europeus da história do Velho Continente. Esta pequena, e em princípio não muito boa, epítome é sobre e para Winston Churchill, símbolo da resistência ao totalitarismo do século XX.

Estudante mediano, literado fora de série e com um gosto jubilar pelas palavras, chegou ao Poder à custa, não só mas também, da covardia de outros depois de falhar algumas vezes na vida.

Ao chegar, prometeu sangue, suor e lágrimas [até dizia que nada mais tinha a oferecer], e jurou nunca se render perante a ameaça ao estilo de vida do mundo livre.

Sem qualquer apreço por hipotéticas negociações com Hitler, que considerava asséticas e humilhantes, vociferou os ouvidos da House Of Commons com o épico discurso em que prometeu levar a Ilha Britânica a lutar nos campos, nas praias, no ar, na terra, e no mar; fosse a que custo fosse [afinal de contas, o nosso amigo Hitler estava entretido, apenas a umas centenas de milhas, a dominar os Franceses]. Audaz, e com uma oposição interna ácida, regozijou em tom de lamento que se fosse necessário, o Reino Unido lutaria por anos; se necessário, sozinho.

Com a Europa na penumbra das garras da Wehrmacht no início da década de 40, era dos poucos políticos Britânicos a acreditar na vitória do Reino Unido, id est, na vitória da democracia, na vitória do Ocidente per se.

Valha-nos o irascível santo das ironias políticas: sai derrotado das eleições de 1945; talvez se tenha aplicado a velha regra de que “quem faz a guerra, não pode fazer a paz”. Mas até aqui há ironia: Churchill foi dos grandes percursores e entusiastas de uma Europa Unida, talvez porque a história lhe havia de dar razão; em 1961, o mundo entra numa fase divisionista, causada por uma “cortina de ferro” que o próprio havia previsto; fase essa que se juntou às poucas vezes em que a incipiência da divisão entre bons e maus das histórias para crianças fez o mínimo de sentido.

Com mais tempo - ou se calhar só com mais paciência e necessidade – dedicou-se às artes, e ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1953.

Mestre no ofício de juntar palavras, corrosivo no humor - a atividade mais transcendente que um homem pode executar na sua inglória e irredutível imanência - e com um carisma que colocava qualquer aspirante a ditador de pé atrás, ganhou poucas vezes na vida, mas quando ganhou fê-lo com esplendor e grandiosidade. A sua derradeira vitória foi aurora de paz.

Winston Churchill esteve do lado certo da história. Devido à sua pessoa, a civilização Europeia permaneceu com o espírito livre intocável, e, se calhar, até o aprofundou. Por fim, graças a Winston, ganhamos nós: filhos aclamados da ordem proporcionada pelo sistema que é o pior que o homem já criou, à exceção de todos os outros.

 

Luís.

 

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