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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Ao centro, e à mindicância democrática.

prolibertate, 20.01.20

À terceira dissertação nesta tertúlia blogueira, corro o risco de começar a construir uma imagem de fanático pela Direita. Lamento, mas é dos poucos tópicos sobre os quais estou minimamente habilitado para escrever. Pela moderação e pela prudência.

 

No passado sábado, tivemos a segunda volta das eleições internas do PSD. O resultado foi o que já se esperava: felizmente para uns, infelizmente para outros. 

Resta, portanto, saudar o Sr. Primeiro Ministro António Costa pela excelente vitória que teve nas internas do PSD; saudar o Sr. Deputado André Ventura por poder materializar o estereótipo de "Direita Grunha", coisa que o próprio faz tão bem, enquanto grita a pulmões cheios que é a "única e verdadeira Direita", e saudar os liberais da Iniciativa, que têm os próximos quatro anos para ficarem sozinhos na frente de batalha "contra o Estado".

Perdeu a Direita, perdeu a Democracia, perdemos nós, enquanto país.

Ganhou Rui Rio, o homem que fez mais oposição ao seu próprio partido quando este Governou numa posição ingrata do que nestes dois anos como líder do próprio PSD. E ganhou contra um candidato, que todos sabíamos que era fraco - e que aliás, foi visto nestas eleições como “o que não é o Rio” - mas que tinha a obrigação de ganhar. E tinha essa obrigação devido à lealdade e respeito pela tradição do PSD. Um PSD que sempre foi uma espécie de federeração política, um PSD que sempre recusou puritanismos ideológicos, que sempre foi exímio no trabalho de agregação de sensibilidades políticas - desde os mais liberais aos mais conservadores - mas um PSD que nunca recusou o seu lugar à Direita no espectro: reformista, popular, personalista, defensor da primazia do mercado ainda que nunca esquecendo os papéis do Estado na autoridade, na segurança, na regulação e na defesa. Este PSD, a velha mesa de reuniões das Direitas democráticas, perdeu. 

As eleições internas do PSD de sábado não eram sobre escolher o futuro primeiro-ministro: antes pelo contrário. Sabíamos de antemão que se estava a escolher a próxima vítima do Partido Socialista. As eleições eram, acima de tudo, para definir o futuro do PSD enquanto projeto político para o país, nas dimensões do seu objeto, do seu rumo, da sua vontade e da sua vertente ideológica. Tudo isso que o PSD perdeu, pelo menos, para os próximos dois anos. 

Posto isto, e observando bem as coisas, percebe-se que, se calhar, o Dr. Santana é que estava certo: "Por um PSD que seja mais PPD do que PSD". Mas deixando para outro dia o debate sobre a parvoíce que é nomenclatura do sistema político-partidário português, importa, mais uma vez, referir o seguinte: a Direita Democrática e Popular Europeia está doente. Em Portugal está quase morta. Condenada a governar como ultima ratio em momentos de crises insustentáveis; e condenada à covardia de ter medo de ser, e de se assumir como, Direita enquanto assume batalhas à esquerda na busca de eleitorado social-democrata. E o facto de o próprio PSD ter optado por dar a vitória a Rui Rio só intensifica este diagnóstico. O facto de ter ganho o portento que a primeira coisa que fez quando chegou à liderança foi exasperar-se com um fortíssimo: “O PSD não é, nem nunca foi, um partido de Direita!”, assim como a Ala à Direita não conseguir apresentar um candidato melhor que Montenegro, é relevador da decadência do "espaço não-socialista" português.

O PSD virar ao “extremo-centro”, ou, exagerando, ao “centro-esquerda”, não é mau só para a Direita. É mau para os democratas, para os moderados, para o equilíbrio que é necessário em qualquer sistema político. Evitemos fatalismos: o PSD não está morto. Mas o seu estado atual é uma das principais causas para a falta de fortuna da Direita Portuguesa. 

Portugal continua à espera de um PPD. Contudo, o futuro, esse, que nunca é tão bom quanto o previsto, mas que também nunca é tão mau como tememos, não parece indicar que haja alguém que seja capaz de nos guiar - a nós, os derrotados, os "de Direita", o eleitorado órfão - pelo nevoeiro que teima em não desvanecer.

 

Luís.

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Foto por: José Coelho/Lusa

 

 

O Futuro: à Direita e da Europa.

prolibertate, 13.12.19

A Europa já nos deu mais motivos para sorrir. Também já nos deu mais motivos para chorar. Já teve mais vitalidade, prosperidade, e também já esteve menos desacreditada. Ontem não ficou melhor. Mas a vitória de Boris e o Brexit podem ser o início de uma reflexão premente sobre a Europa e a semente para o renascimento da Direita Europeia, que tem andado à deriva entre o puritanismo e o reacionarismo.

 

Dito isto, ao contrário do que muitos peritos do debate público afirmam, importa que dizer que Projeto Europeu não está falido. O modelo Europeu não está falido. Olhemos em volta: a Europa depois de séculos de história em que falhou e venceu, construiu o projeto comum mais ambicioso da história, construiu o modelo que permitiu, num espaço de 70 anos, que cada geração tivesse oportunidades que a anterior nem sequer pôde sonhar. A Europa teve forma de Impérios, andou em guerras entre si durante séculos, e foi derrotada por si própria. Mas hoje, temos o modelo social mais ambicioso do planeta, à custa da constante correção de todos os erros que cometemos. A Europa construiu um modelo tão próspero que nos faz, hoje, ter urgência de soluções para problemas que ainda nem sentimos; problemas esses que surgem apesar de toda a sensação de conforto e invencibilidade que foi fomentada. E é aqui que importa focar: o projeto Europeu falhará, sim, se nos mantivermos imóveis e não procurarmos ter uma Europa mais próxima dos cidadãos, uma Europa mais democrática e uma Europa que se mostre, como é, aos seus cidadãos.

O cidadão comum continua sem saber, exatamente, qual é a influência que a União Europeia tem na sua vida. O cidadão comum continua a votar nas eleições europeias - os que votam - por um mero costume e rotina. E, por sinal, vota por clubismo partidário.

Precisamos de uma União Europeia em que as suas instituições desfrutem de uma legitimidade democrática. Precisamos de uma União Europeia em que as áreas da atuação estejam bem definidas e assinaladas. Uma União Europeia mais orgânica, transparente e descentralizada. Não precisamos de uma União Europeia com poderes de regulação em todas as matérias. Precisamos de uma União Europeia que se foque nas áreas onde ter uma voz comum é imperial como na política de imigração ou como na ajuda que fornece a resoluções de problemas históricos como o conflito Israelo-Árabe. Precisamos de uma União Europeia que, usando uma expressão coloquial, "até possa mexer em pouco, mas mexa bem". 

O Brexit e a quantidade de partidos eurocéticos eleitos pela Europa fora são um alerta. Um alerta de que aquilo que damos como certo: os valores, as instituições, o modelo social; tudo isso não é garantido per se.

Estreita a necessidade de reformas profundas no seio da União Europeia; uma União que se quer uma União de Estados, mas também de Cidadãos. E para chegarmos a essa União é imperativo que as respostas que a União quer dar sejam em proximidade com os eleitores, de forma a que sejam perceptíveis e legítimas. Sendo que o "legítimas" é o mais importante disto tudo. É verdade que a União Europeia tem o parlamento mais democrático do mundo. É, também, verdade que em muitas áreas a União Europeia goza de uma democracia louvável. Contudo, não podemos querer uma democracia pela metade. Quantos Europeus conheciam Ursula Von Der Leyen quando votaram a 26 de maio? Deixo para reflexão.

In posterum, a pior coisa que enquanto Europeus, ou enquanto Europeístas, podemos fazer é usarmos, constantemente, o argumento "Mais Europa!" para todos os problemas que surgem. Se calhar umas vezes é «Mais Europa!», com uma política que tem de ser, irredutívelmente, comum; outras vezes é «Mais Soberania!», com uma pluralidade necessária e saudável. E há outra coisa essencial que devemos evitar: descartar toda e qualquer culpa da União Europeia no crescimento dos partidos eurocéticos e no Brexit. Seria arrogante e partenalista, para não dizer irresponsável, achar que toda a culpa está "no outro lado", que "o eleitorado é infantilizado", e que o imobilismo e elitistismo europeu não tem consequência na confiança que o eleitorado deposita em partidos populistas.

Seja como for, o projeto Europeu, apesar de não estar morto, precisa de ser repensado. E talvez o Brexit seja responsável, não pelo início do fim, mas pelo início das grandes reformas na burocracia Europeia; quiçá esta possa converter-se na sua raison d’être.

 

Voltando à noite eleitoral britânica: ontem, acredito eu, aconteceu o melhor para a Europa. É importante não esquecer que o Brexit será sempre algo negativo e - esperemos nós - será lembrado como uma mancha negra na história do projeto Europeu. Há também que relembrar que as intenções do mesmo não foram, propriamente, as melhores - não podemos, nem devemos, ignorar que coisas como a desinformação, a xenofobia e a questão da imigração contribuíram para o desfecho do referendo de 2016. Contudo, passado três anos, com o contexto que temos até porque não há outro, o melhor desfecho possível era este. Este é o desfecho que permite - tanto a nós como aos nossos amigos britânicos - arrumar toda esta confusão e seguir em frente. Este é o desfecho que - também importante lembrar - acaba com as dúvidas sobre a legitimidade democrática do Brexit. Enquanto Europeísta convicto, fica um sentimento de tristeza por ver os Britânicos partirem, porém, sendo simplista, era isto ou alimentar as feridas.

 

À propos de Boris. Devo dizer que nos motivos da minha admiração por Boris, o Brexit vem no fim da lista. Acima de tudo, o que eu espero é que traga à Direita respostas para os problemas que os ideólogos têm desvalorizado.

O establishment político Europeu não deixa margem para grandes otimismos. À Esquerda e à Direita a moderação e a sensatez têm estado perdidas. Os supostos moderados de cada lado do espectro têm preferido aliar-se à, ou sucumbir ao populismo da, sua extrema.

Por isso é que a vitória de Boris - e a consequencial reforma dos Tories - pode ser o renascimento e um modelo para o futuro da Direita Europeia. Boris pode trazer um discurso próximo das pessoas: pragmático, conciso e consciente. Boris pode trazer uma Direita que não desvalorize as desigualdades ou a necessidade de um Estado que proteja os cidadãos em vez de os atirar à anarquia. Uma Direita que, sem nunca esquecer que o Estado deve ser pequeno, não sucumba a dogmas libertários de uma economia totalmente desregulada. Uma Direita que não se cole  à sua extrema por ser mais anti-esquerda do que Direita - e até, se possível, a neutralize. Uma Direita que não seja imobilista social. Uma Direita que saiba para onde ir, que tenha um fim e um trajeto para lá chegar. Em suma, uma Direita popular, humana, e capaz.

Faz falta a Direita: Direita essa que se perdeu em lutas reacionárias nos costumes e em utopias como a do mercado conseguir, sozinho, resolver todo e qualquer problema social ou financeiro. Sobre a persona de Boris, quero só ressalvar ainda que: nos costumes, o mesmo pode trazer a Direita para a atualidade - não esquecer que Boris, há já quinze anos, ficou praticamente isolado dentro do partido a favor da união civil entre casais homossexuais. Também convém lembrar que Boris Jonhson foi mayor de Londres - uma das cidades mais multiculturais da Europa. E na economia, Boris, mais do que doutrinas, traz eficiência - aqui até podemos pegar num exemplo recente: Boris Jonhson deixou cair o objetivo de baixar o imposto de pessoas coletivas (IRC) de 19% para 17% em prol de um maior investimento no Sistema Nacional de Saúde (NHS). Isto talvez soe estranho a quem costuma endeusar o mercado, mas não soará estranho a quem está mais preocupado com a eficiência do Estado.

Boris não é perfeito. Há, por exemplo, um claro problema no seu discurso sobre a imigração que eu espero que termine com o acontecimento do Brexit. E chegou ao poder - que o próprio acredita(va) estar-lhe destinado desde tenra idade - à custa de uma causa que nunca tinha sido sua antes; Hipocrisia, dirão alguns. Perspicácia, dirão outros. Quanto a mim, agrada-me que Boris traga uma ideia e um projeto para o futuro. Que traga poder de decisão. Que seja um líder.

 

Rome ne s’est pas faite en un jour, mas esta é a Direita que eu, ironicamente, sonho; e que espero que toda esta turbulência numa Ilha historicamente estóica possa trazer. Com a devida subscrição pela tradição conservadora britânica: sou mais cético que otimista e mais pragmático que idealista; ainda assim, com o Brexit e com a vitória esmagadora de Boris Jonhson - diga-se de passagem que é a maior vitória desde Thatcher - acredito que uma nova fase começou na política europeia. E, com isso, espero que a Direita se possa levantar da penumbra de extremismo, reacionarismo e puritanismo onde se meteu. E, espero ainda, que a Europa possa deixar o seu posto de - para ser simpático - "gigante adormecido". 

 

Luís.

 

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Epítome de, e a, Churchill.

prolibertate, 30.11.19

A 30 de novembro de 1874, nascia um dos maiores Europeus da história do Velho Continente. Esta pequena, e em princípio não muito boa, epítome é sobre e para Winston Churchill, símbolo da resistência ao totalitarismo do século XX.

Estudante mediano, literado fora de série e com um gosto jubilar pelas palavras, chegou ao Poder à custa, não só mas também, da covardia de outros depois de falhar algumas vezes na vida.

Ao chegar, prometeu sangue, suor e lágrimas [até dizia que nada mais tinha a oferecer], e jurou nunca se render perante a ameaça ao estilo de vida do mundo livre.

Sem qualquer apreço por hipotéticas negociações com Hitler, que considerava asséticas e humilhantes, vociferou os ouvidos da House Of Commons com o épico discurso em que prometeu levar a Ilha Britânica a lutar nos campos, nas praias, no ar, na terra, e no mar; fosse a que custo fosse [afinal de contas, o nosso amigo Hitler estava entretido, apenas a umas centenas de milhas, a dominar os Franceses]. Audaz, e com uma oposição interna ácida, regozijou em tom de lamento que se fosse necessário, o Reino Unido lutaria por anos; se necessário, sozinho.

Com a Europa na penumbra das garras da Wehrmacht no início da década de 40, era dos poucos políticos Britânicos a acreditar na vitória do Reino Unido, id est, na vitória da democracia, na vitória do Ocidente per se.

Valha-nos o irascível santo das ironias políticas: sai derrotado das eleições de 1945; talvez se tenha aplicado a velha regra de que “quem faz a guerra, não pode fazer a paz”. Mas até aqui há ironia: Churchill foi dos grandes percursores e entusiastas de uma Europa Unida, talvez porque a história lhe havia de dar razão; em 1961, o mundo entra numa fase divisionista, causada por uma “cortina de ferro” que o próprio havia previsto; fase essa que se juntou às poucas vezes em que a incipiência da divisão entre bons e maus das histórias para crianças fez o mínimo de sentido.

Com mais tempo - ou se calhar só com mais paciência e necessidade – dedicou-se às artes, e ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1953.

Mestre no ofício de juntar palavras, corrosivo no humor - a atividade mais transcendente que um homem pode executar na sua inglória e irredutível imanência - e com um carisma que colocava qualquer aspirante a ditador de pé atrás, ganhou poucas vezes na vida, mas quando ganhou fê-lo com esplendor e grandiosidade. A sua derradeira vitória foi aurora de paz.

Winston Churchill esteve do lado certo da história. Devido à sua pessoa, a civilização Europeia permaneceu com o espírito livre intocável, e, se calhar, até o aprofundou. Por fim, graças a Winston, ganhamos nós: filhos aclamados da ordem proporcionada pelo sistema que é o pior que o homem já criou, à exceção de todos os outros.

 

Luís.

 

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