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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

VPV

prolibertate, 21.02.20

O maior erro dos obituários é o de cair na tentação de escrever sobre quem fica e não sobre quem foi. É o que farei, porque é a única forma de justificar este texto aqui . 

Vasco Pulido Valente foi muita coisa, como nos explicam, mas foi realmente uma só: um historiador que escrevia crónicas. E que crónicas, meus amigos. Contrariando os modos da grande fauna da imprensa nacional — “os indígenas”, diria ele —, as crónicas de VPV foram escritas por alguém inteligente, que leu coisas interessantes e cuja graça natural aumentava quando parecia ser involuntária. 

Os cronistas de ontem e hoje , tal como os de amanhã, que ainda não praticam o ofício mas nós sabemos quem são,  continuam péssimos na escrita, presos à oralidade e à tacanhez da sua cultura. Também eles ajudaram a criar o mito do snob ácido, que arredondava a injúria com um entendimento superior da cadência e da fonética da língua em que escrevia (curiosamente, adotou os apelidos do avô como pseudónimo, justificando-se com a péssima fonética dos originais).

Para além disso, é claro que havia nele um observador político astuto, conhecedor de meandros e frequentador dos salões, com a capacidade de condensar o zeitgeist numa expressão de desprezo. Isso não o distingue. Aliás, tal como todos os comentadores regulares, Vasco Pulido Valente fez previsões, acertou e errou. Porém, e ao contrário de todos os outros, falhou sempre com graça. O caso mais evidente de injustiça será o de Cavaco e do cavaquismo, por ele semanalmente sovados durante a década de 90, em textos que hoje só nos podem fazer sorrir — sobretudo quando trata a ideia horrorosa de levar os pobres para a escola e, imagine-se, para a universidade, um erro de julgamento que mais tarde reconheceu. 

Como acontece com os melhores, ler Pulido Valente fazia surgir uma vontade urgente de escrever que era depois acalmada pela noção esmagadora de que nunca poderíamos escrever assim

Também os livros e ensaios históricos que deixa são relevantes, sobretudo o que escreveu sobre a 1.ª República e Marcello Caetano, mas só serão comprados pelo cidadão confuso numa livraria de centro comercial ou pelo jovem adulto com vontade de pertencer a um grupo. Nenhum deles os lerá. 

A sua participação política partidária foi sempre curta e provada certa pelo tempo, que é o melhor que se pode dizer de qualquer participação política partidária. Nunca se poderá dizer que foi um tecnocrata do teclado ou um eco de opiniões alheias — enfim, não foi um utilizador do Twitter.

O legado que deixa é vasto e a sua coletânea de crónicas de maior escopo, com textos entre 2006 e 2015, é um documento importante para se perceber o Portugal que vamos tendo, mas é provável que seja rapidamente esquecido. Será injusto: numa época em que tudo é opinião, VPV foi durante décadas um prosador exemplar, raramente perdendo o estilo e com uma repercussão só comparável à de Miguel Esteves Cardoso. Se algum dia a crónica for matéria séria, o cânone não pode passar sem ele.

Chega a parte da justificação pessoal, até porque isto é um blogue. Gosto muito de ler o VPV e li quase tudo o que escreveu (aproveito para anunciar que estou comprador há vários anos do sempre desaparecido “O País das Maravilhas”, por isso contactem). Das crónicas à história, passando pelo desconfortavelmente confessional “Retratos e Auto-Retratos”, sei o que tinha a dizer sobre a guerra do Iraque, o frémito antitabagista e as peripécias sociais de um secretário de Estado. Ainda não descobri outro no mesmo campeonato e sou uma convicta Testemunha de Vasco, aconselhando as obras que ainda se encontram por aí a amigos e conhecidos sempre que surge a oportunidade.

É uma chatice deixar de o ler aos sábados, mas regressarei muito à última crónica da última coletânea, que começa por “Chateubriand dizia que, se é triste envelhecer num mundo que se conhece, é muito mais triste envelhecer num mundo que não se conhece e de que não se gosta” e continua com “admito que devia aproveitar a ignorância e a vulgaridade democrática. Infelizmente, não sou capaz. Desisto e leio. De facto, cada vez mais releio os livros de antigamente, suponho que à procura de um pequeno canto de sossego e sanidade”.

O título é “Não fui feito para isto”. Mas foi. 

 

JDB

 

 

Apoiar Boris

prolibertate, 09.12.19

O mundo já esteve melhor. A direita também. Ameaçada por todos os lados, sai de uma década de cão e entra nos anos 20 sem um rumo discernível. Fazer a crónica dos desaires que nos trouxeram aqui cabe aos historiadores mais do que aos esbeltos participantes deste blog, mas sobre o futuro todos temos uma palavra a dizer. 

Enter Boris. O furacão oxigenado que atingiu Westminster no verão soma defeitos que desqualificariam o político normal: é inconfiável, não demonstra particular talento para o trabalho burocrático de governar e o adjetivo “buffoon” acompanha-o com frequência, facto a que não é alheia a sua propensão para se encontrar em situações visualmente ridículas — mas, ao mesmo tempo, todos nós ficamos suspensos no ar enquanto agitávamos uma bandeirinha nacional em algum momento da nossa vida. Por outro lado, o cabelo propositadamente desgrenhado, a dicção diletante e a cultura clássica combinam-se para formar uma bizarra persona churchilliana cujo carisma vai carregando os conservadores pelo nevoeiro da política britânica. 

O sucesso de BoJo não é explicável sem cometer uma traição às mais básicas regras da escrita e contrariar o primeiro parágrafo, porque aquilo que distingue Boris de May ou Cameron é o facto de responder às causas da decadência da direita europeia nos últimos anos: o discurso estritamente economista, que se ultraliberalizou por preguiça mais do que por crença; a incapacidade de reconhecer os derrotados do sistema globalizado, sobretudo no que respeita às desigualdades e ao descontentamento que geram; e a falta de um símbolo, um ícone cultural e popular que lhe sirva de horizonte. 

Boris é um liberal à direita. Não no sentido de querer privatizar o ar que respira, mas por ter tido uma educação cosmopolita, junto da elite tecnocrática de Bruxelas — a que o seu pai pertenceu — , por ter sido o popular mayor de Londres, a cidade-símbolo do multiculturalismo europeu, e por ter uma carreira pública, na política e na imprensa, que fala por si (sendo o melhor exemplo o seu voto favorável à união civil de casais homossexuais, em 2004, que o deixou praticamente isolado dentro do partido). Na economia, secundado pelo talentoso Sajid Javid, o seu programa passa por destruir o legado austeritário de Cameron e George Osbourne, aproveitando a herança de défice controlado e o clima de juros baixos para lançar um ambicioso plano de investimento público, com o objetivo de ganhar eleições e relançar uma economia que todos esperam que se vá despenhar com o Brexit. 

Já hoje, a grande vitória de Boris é ser o primeiro político do centro-direita a recuperar um discurso popular, que não renega a classe média e oferece mais do que contas certas como visão para um país. É inegável o serviço que o liberalismo prestou à democracia nas décadas de 70 e 80, mas depois da crise de 2008 e dos duros anos que lhe seguiram, a direita parece ter esquecido que a sua posição natural é a defesa do small state, que protege os cidadãos dos políticos, e não o Estado mínimo, que vende os cidadãos a entidades abstratas. A proposta passa por recuperar a ideia de que a política tem valores e que a ação se deve guiar por eles — seja contra os marxistas, seja contra salários estagnados. 

Numa entrevista recente, Javid notou apropriadamente que eleger Boris não é exatamente conceder um quarto mandato aos Conservadores, mas eleger um novo governo e uma visão alternativa para o futuro. Essa alternativa, que em larga medida é uma terceira via entre o populismo e o establishment que se digladiam na Europa continental, mas é sobretudo uma reinvenção do establishment para uma sociedade que justificadamente se fartou dele. 

A vitória dos Tories é também importante porque do outro lado está a promessa de um retorno às trevas comunistas. Como sempre acontece quando a sociedade dá um salto existencial, a política oferece uma alternativa de obscurantismo, crueldade e miséria. Corbyn não é uma expressão de conservadorismo, mas de reaccionarismo, prometendo que é possível, à força da máquina estadual, voltar a um tempo mais simples e confortável. Não é, claro, e a própria tentativa é perigosa. 

Como quase sempre, cabe aos conservadores fornecer uma ideia para o futuro. Entra aqui o Brexit, que é uma péssima ideia de acordo com todos os indicadores, mas também o ícone que faltava à direita. O Brexit lembra, por maus processos, aquilo que é a direita: o apelo à identidade nacional, a revolta contra burocracias nebulosas e uma atração quixotesca por más decisões tomadas para conservar um conceito peculiar de honra. 

Há riscos. O Brexit não nasceu de intenções puras, mas de uma inclinação para formas perigosas de política. O Brexit Party, última versão institucional do bando liderado por Nigel Farage, perdeu a sua raison d’être porque o partido de Boris Johnson a adotou em tudo o que era democraticamente aceitável. As propostas relativas à política de imigração traem toda a boa tradição humanista e tolerante da Europa e, ainda que estejam longe de Orbán e Salvini, preocupam. 

Boris cresceu para governar. É aparentemente tudo aquilo que quer fazer desde que tinha idade para pensar no assunto. E tem levado o assunto a sério: em menos de 100 dias como PM negociou um acordo que os cronistas do costume nos garantiram ser impossível a qualquer prazo e conduziu uma campanha livre de gaffes, ao ponto de se tornar aborrecido. Aliás, numa entrevista à Spectator mostrou estar disposto ao ultimate sacrifice pela pátria, revelando que tinha deixado de beber desde que chegou a Downing Street e que só o voltaria a fazer quando o Reino Unido abandonasse a União Europeia — um estóico impressionante. 

No entanto, há uma pergunta que fica: pode um país que namorou a extrema-direita durante vários anos chegar à ponta do desfiladeiro liderado por Boris Johnson e construir uma ponte em vez de se atirar para o abismo? Pode. E mesmo que falhe, esta é a única via que dá uma hipótese. É por isso que apoio Boris.

 

João Diogo Barbosa

 

photo-1571842705650-728fd132c62f.jpeg                                                                                                                                                            Photo by Jannes Van den wouwer on Unsplash

O que há numa Comissão?

prolibertate, 27.11.19

Quando, em julho, Ursula von der Leyen se dirigiu pela primeira vez aos membros do Parlamento de Estrasburgo que haveriam de votar a sua investidura, tratou de prometer medidas populares aos populares, medidas socialistas aos socialistas, medidas verdes aos verdes e uma luta silente aos marginais. De outra forma, apresentou-se à política europeia numa posição de fragilidade, prometendo o possível para ser absolutamente consensual durante os cinco anos de mandato, numa das mais comoventes juras de inutilidade de que há memória.

Essa é a função de um presidente da Comissão Europeia no desconfortável período entre a designação pelo Conselho e a investidura parlamentar: não ofender, mas também não apaixonar, essencialmente ficar sossegado à espera da força de pêndulo do movimento alheio. O trabalho de von der Leyen é mais fácil do que o de Juncker, na medida em que não encontra vários países sobre assistência financeira de dimensão existencial — o que tende a atrair multidões e chamas capazes de incomodar até o Berlaymont — e não há hoje, como definitivamente havia em 2014, uma sensação geral de que a União corria o risco de acabar; mas é também mais difícil, na medida em que se lhe apresentam caminhos mais duros até uma maioria, que passa a ter de incluir verdes ou liberais, e porque, por manifesta insensibilidade política, decidiu já arcar sozinha com a responsabilidade de uma política ambiental revolucionária para todo o continente. Essencialmente, a transição climática (julgo ser este o termo atualmente aceite pela novilíngua) só poderá produzir efeitos positivos apresentáveis daqui a 20 ou 50 anos, mas os 40 milhões de polacos podem já amanhã ficar muito chateados por lhes tentarem desligar os aquecedores alimentados a carvão — o Plano Juncker, grande prioridade mediática da última comissão, era um simpático programa de investimento num período de recuperação económica que se revelou rapidamente popular. 

A figura de UvdL é também desafiante: é uma mulher alemã, privilegiada e pouco carismática. Nos cinco meses que passaram desde a sua escolha pelo Conselho (entretanto, do spitzenkandidat ficamos apenas com a parte germânica), dedicou-se, aparentemente, a domar o monstro burocrático de Bruxelas, assim garantindo que continua a ser conhecida por apenas uma dúzia de cidadãos europeus. A União Europeia não tem palácios isolados em rochedos costeiros, mas tem edifícios modernos e encantadoramente climatizados, que já antes revelaram um efeito atrativo que condenou políticos promissores ao desterro. Esse será um desafio para uma Comissão que se quer “geopolítica” — o que normalmente significa ter funcionários administrativos a falar com funcionários administrativos, interrompidos ocasionalmente por políticos a falar com políticos. 

Uma palavra final para o orçamento, sobre o qual a Comissão tem pouca capacidade de decisão, mas do qual depende como um construtor civil nos tempos socráticos. A discussão parlamentar promete ser uma confusão entre apparatchiki nacionais e europeus, seguida pela confirmação do Conselho — os senhores e senhoras que efetivamente disponibilizam o dinheiro. Conseguir financiar mais projetos e novas prioridades é sempre o objetivo de uma nova Comissão, mas é no escasso poder de determinação orçamental que está uma das grandes peculiaridades do “executivo europeu”. Neste ponto, o facto de vdL não ser uma figura política relevante (pelo menos até ao momento em que se torna presidente da Comissão) pode diminuir o poder fáctico do Berlaymont. Não há como negar: com mais ou menos ginástica, é desse acordo que depende o programa de Ursula von der Leyen para a Europa. 

Money talks. Ou l’argent parle, que será mais apropriado. 

 

João Diogo Barbosa