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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

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O caminho para a sustentabilidade do SNS

prolibertate, 03.12.19

De cada vez que um populista comenta o estado do Serviço Nacional de Saúde morre um gatinho. Baseados em indicadores que não percebem, estabelecem causalidades brutas, atiram números e contas ao ar, falam de custos de formação sem entender no quê que esta consiste, engasgam-se com tanta hora de espera, aclamam uma gratuitidade verosímil e babam-se em elogios a um sistema que está longe de ser sustentável.

Gostaria de esclarecer que o principal problema do SNS é a falta de saúde dos portugueses. Parece óbvio, não? E um português, para além de um contribuinte e de um eleitor, é um ser humano, com um código genético e um estilo de vida único, e que por isso pode chegar aos 100 anos sem ter gasto um único cêntimo em Saúde, apesar de ter pago toda a vida impostos, ou ter dois meses de vida e precisar de um tratamento de 2 milhões de euros. E é tendo em conta esta multiplicidade de fatores, que não cabe em folhas de Excel nem é 100% expressa por indicadores, que as opiniões devem ser dadas e as decisões políticas tomadas.

O segundo problema do SNS, é a sua má gestão, e começo pelo seu gestor: Marta Temido. Começo pela senhora ministra, não porque considere que ela tenha culpa, pois apesar das muitas barbaridades ditas por si no pouco tempo que ocupa o cargo, esta não chega a ser uma frase sequer na história da Sistema de Saúde Português, nem, no meu ponto de vista, alguma vez será porque nunca foi uma profissional de saúde, nunca foi estudante de medicina ou de enfermagem, nunca lidou com as consequências diretas de faltas de recursos, nunca chorou a morte de um doente que descompensou por ela não ter chegado a tempo, nunca teve de ser família daqueles que foram abandonados nos hospitais. E isto parece uma pieguice, mas se aqueles “nunca” pudessem ser substituídos por “já”, creio que não haveria tanta leviandade a fazer certas promessas como a da ala Pediátrica do São João ou raciocínios reles como “os estudantes de medicina são formados pelo público, os especialistas são formados pelo público por isso vamos obrigá-los a ficar no SNS para pagar o que devem”. Apesar de tudo isto, a única coisa má que lhe posso apontar é a falta de capacidade ou coragem de corrigir o que está mal há muitos anos.

Identifico assim três desafios para esta legislatura com o alerta que os seus resultados só serão notados a longo prazo e que não são de todo os únicos. O primeiro desafio, sem dúvida, é o planeamento. Temos uma formação de profissionais de saúde de excelência, cobiçada além-fronteiras, mas que não está a ser rentabilizada por falta de planeamento! Atiram-se números ao ar quando se fala de quanto custa formar um médico e um especialista e parece não haver interesse em criar um grupo de trabalho com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior para averiguar e resolver as falhas. Toda a gente “alerta” que não há médicos, mas também não há nenhum trabalho que caracterize a população, perceba as suas reais necessidades para ser possível atuar com precisão e não haver desperdício de recursos. Ainda sobre este ponto, há uma falta de informação injustificável: enquanto não soubermos exatamente de que forma é que cada hospital gere a mesma patologia, e com isto falo de procedimentos, custos e outcomes, para no fim ser possível comparar resultados, perceber qual é o melhor modelo e replicá-lo, estaremos a esbanjar o dinheiro que não temos em egos e serviços não eficazes.

O segundo ponto trata-se do acesso à saúde. Existem 11 milhões de portugueses, se estes 11 milhões quisessem ou tivessem de usar o SNS seria uma catástrofe porque não há capacidade de resposta. A população depende dos privados: os que podem usá-los, os que não podem, mas conseguem aceder ao público mais facilmente porque nem toda a população doente vai lá parar e os que vão para o privado com o dinheiro público porque o SNS não teve capacidade de resposta para eles. Muitos também não conseguem sequer chegar aos hospitais ora porque não tem forma de se deslocar até lá, ora porque morreram primeiro por falta de acompanhamento médico, por desvalorização da doença e irresponsabilidade própria ou por causas biológicas não evitáveis. Uma das soluções que identifico para melhorar o acesso, não é desatar a construir hospitais, mas sim seria valorizar e melhorar das unidades de saúde primárias e facilitar o deslocamento.  

Por último, para abordar o terceiro desafio, gostaria de voltar ao inicio e reforçar que todos gastos em saúde se devem a DOENÇA. Qual é a percentagem do Orçamento de estado que está a ser destinada para a PREVENÇÃO da mesma e PROMOÇÃO da saúde? 1%. É urgente diminuir a obesidade, o tabagismo e alcoolismo, melhor a qualidade do ambiente, monitorizar e rastrear melhor, instruir mais a população e isto não se alcança a longo prazo a retirar a liberdade de compra aumentando impostos, mas sim a sensibilizar a população para a importância dos hábitos de vida saudáveis.  

Para concluir, a saúde não é um negócio, mas devia ser gerida com tal: auditar todo o tipo de gestão, despedir incompetentes e premiar a competência, reduzir a carga de doença na população para diminuir os gastos, trabalhar para o lucro que é a melhoria da qualidade de vidas dos portugueses e não permitir que ideologias cegas, populismos baratos travem a evolução para modelos de gestão mais sustentáveis. 

 

Francisca

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