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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

De quem é o voto dela?

prolibertate, 28.11.19

Em quem votaste a 6 de outubro de 2019? No partido com que mais te identificas? No candidato a primeiro-ministro que achas carismático, no cabeça de lista reputado do teu círculo, noutro candidato? Pois, nem sei bem.

Isto a propósito da ensurdecedora crise nacional e muito portuguesa que se instalou à custa de uns 0.4% da Assembleia da República, representantes de pouco menos de 23 mil votos no círculo eleitoral de Lisboa, e uns 99.6% do círculo eleitoral do Twitter. Alguns eleitores do Livre poderão hoje arrepender-se do voto - não sei se o fazem ou não, nem é para mim relevante - não podem é dizer que foram enganados em campanha eleitoral. Por outro lado, eleição feita, é verdade que nos lugares de representação se faz muito da política, cada vez menos e mais pelo mediatismo, mas, acima de tudo o resto, convém saber quem se representa e por que causas. Se a agenda de um deputado único não corresponde à do partido, a ruína começou quando este foi escolhido para uma candidatura de destaque.

Não vou mais por aí. Se por muitas ocasiões podemos ler, pensar ou escrever sobre reforma do sistema eleitoral, a última vez que surgiu um mote tão pertinente, ainda o queijo limiano era limiano. Sendo verdade que os sentimentos, reflexões e análises que devem servir de base a um voto dependem muito de um fatalismo geográfico, de onde a nossa mesa de voto se lembrou de brotar, também o é que a nossa Democracia passa hoje por pré-fabricada, obscura e imposta por uma pseudo-aristocracia pouco nobre.

Partindo de um princípio de honestidade política, i.e. de que a candidatura individual de Joacine enquanto “all-in” do Livre não considerou interesses aritméticos ou eleitoralmente pragmáticos, mas sim conteúdos coerentes, o cenário pede clarificações. A responsabilização pública na Democracia representativa não é de caráter opcional. Candidatos a deputados, ainda que na mesma lista, não são nem devem ser uniformes ou meros ecos partidários, mas devem sempre lealdade a um programa e prioridades políticas apresentados aos seus eleitores.

O mesmo dilema se vive de uma forma extraordinariamente distinta e mais grave nos grandes partidos, até mais no PSD do que no PS (top desalinhados, via hemiciclo). A disciplina de voto faz todo o sentido em matérias claramente(!) inscritas no programa eleitoral - seja este o pessoal, o de círculo ou o partidário - ou naquelas das quais depende o interesse do país de uma forma estrutural e urgente. Tolerar voto preguiçoso, seguidista e não exigir que cada deputado tenha um pensamento próprio e publicado para cada matéria relevante (do qual deverá abdicar para efeitos de representação, quando claros) é permitir que a cada quatro anos a pobreza do debate e do QI per capita naquela câmara afaste até o eleitor mais interessado. Se aí chegarmos, é bar aberto para aqueles nossos condutores.

Não é por discordar quase sílaba por sílaba da ação política da deputada, no conteúdo e cada vez mais na forma, que defenderei que se lhe possa condicionar a última palavra em cada votação no Hemiciclo. Todos os restantes envolvidos devem ficar na infeliz condição de sentir a responsabilidade por esta eleição sem conseguir mais definir.

O peso na consciência não se decreta: até à próxima eleição, a deputada Joacine Katar Moreira tem direito de voto e só a própria pode abdicar dele.

 

RG