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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

A importância de não prestar (tanta) atenção.

06.04.20

  Os últimos meses têm sido marcados, como nos fazem questão de relembrar constantemente, pela assolação que nos traz o Covid-19. Este vírus miserável que tem a ousadia de nos ter confinado aos espaços que habitamos todos os dias tem sido para uns um martírio e, para outros, uma oportunidade.

  Para mim, que me encontro numa fase particular da minha vida em que estou a escrever a minha dissertação de mestrado, estar em casa é a norma. É, por consequência, também a norma estar habituado a conjugar a escrita com a leitura, o lazer com o descanso, o aborrecimento com a excessiva produção. Esta liberdade característica de quem se encontra a trabalhar em casa permite-nos a oportunidade de divagar. A oportunidade de parar quando queremos, sair, apanhar ar ou então, pelo contrário, a confinarmo-nos a um espaço cinco por cinco a ler e a escrever incessantemente para, de alguma forma, darmos o nosso melhor no projecto em que estamos (ou devíamos estar) focados.

  No entanto, também nos permite a criação de uma rotina. Esta rotina de quem está em casa, como implica qualquer rotina, mostra-nos que o hábito de o fazer faz com que não prestemos muita atenção a diversas coisas que este confinamento forçado nos tem obrigado a reparar. Entre tantas que podia falar, apercebi-me rapidamente de uma tão simples que é ver e ouvir as notícias. Num dia normal antes deste confinamento injuntivo, ver e ouvir as notícias era o hábito. Hábito esse tão enraizado que, em maior parte desses dias, apenas estava o som na televisão enquanto fazia outras coisas talvez mais impertinentes e seguramente menos importantes. Tal não me impedia, no entanto, de perceber, de forma geral, como ia o mundo, desde o crime mais macabro onde judas perdeu as botas ao resultado do jogo da bola que não acompanhei, passando pela desleixada política portuguesa. Com a propagação deste execrável vírus, comecei a prestar uma real atenção às notícias. Como todo o cidadão, queria acompanhar os desenvolvimentos mais recentes sobre o assunto, sempre com o natural receio que pudesse vir a atingir aqueles que são mais próximos de mim. Até ao dia.

   O assunto tomou tais proporções que levou a todos os jornais, rádios e meios vinculadores de informação a não falar de mais nada. É como a sociedade reage ou devia reagir ao vírus, é o que se faz com o vírus, é o que o vírus faz, é o que os políticos fazem por causa do vírus e é o que os políticos deviam fazer com as informações que têm do vírus. Não há mais nada e eu atingi o meu limite. Podem dizer-me, e posso acreditar, que o vírus é o assunto mais importante da atualidade. Que todos os outros assuntos devem estar em standby até que esta maleita horrível que nos aflige seja, pelo menos, contida. E tudo bem. O que não me parece assim tão lógico é que esta moléstia seja o nosso dia.

   Por se ter tornado o nosso dia é que me recuso, alterando as minhas rotinas que tanto prezo (talvez de mais, mas é a vida), a procurar saber, ouvir ou ver as notícias. A concentração de informação, que já não informa o mais inculto individuo sobre este vírus, levou a que me afastasse de qualquer meio que me pudesse informar sobre o assunto. A sobrelotação de informação, por vezes esguia, inconformada e incorreta, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, afastou-me do noticiário nacional e internacional como uma traição afasta o traído. Até porque é assim que me sinto, traído. Traído por aqueles que faziam parte da minha rotina diária, que me informavam perante a minha indiferença, mas que, mesmo assim, me faziam saber as mais nobres e as mais obscuras informações do mundo.

  Não é, nem quero que o seja, um descartar ou renegar da importância da informação sobre o vírus. Pelo contrário. Bem sei a sua importância e desejo, talvez mais que tudo o resto, que esta situação se ultrapasse rapidamente.  Precisamente porque quero a minha aborrecida rotina de volta é que prezo, com todas as forças que um humano pode ter, que esta situação passe para as páginas mais esquecidas dos livros de história.

  O que renego, e de forma invejosa, admito, é, como conseguem perceber, alteração da minha rotina. A importância que, para mim, tinha não prestar tanta atenção ao noticiário. Para mim, e para outros, que, levados de loucura como eu, prezam demais o aborrecimento da rotina.

   Podem criticar, e bem, esta minha inveja perante a situação que todos nós passamos, mas o homem não é perfeito e também é feito destes pequenos gostos e desgostos. Como tal, e porque não sou perfeito, nem todos nós temos a capacidade de pensar sobre os grandes males do mundo de forma frutífera. Eu, confinado ao meu espaço, agora sem a liberdade que devia ser inerente, faço a minha parte em falar dos pequenos males do dia a dia, o que, para um ser abusadamente rotineiro como eu, passa pela simples alteração do hábito ao qual não se prestava a devida atenção. E não é pouco.

   Gostava de não prestar atenção e não sabia. Esta é a importância de não prestar tanta atenção.

 

Pedro