Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

A divinização da Greta

prolibertate, 06.12.19

O assunto da degradação do meio ambiente não é novidade para ninguém, principalmente nas últimas décadas onde vários cientistas, ativistas e organizações alertaram para os problemas que a ação do homem tem vindo a causar ao meio ambiente. Contudo, nos últimos tempos, temos assistido à ascensão meteórica de uma criança que abraçou o discurso da salvação climática para alertar a sociedade civil para um problema que os próprios cientistas não conseguiram com que antes fizesse eco na nossa sociedade.

A atividade de Greta frente ao Parlamento Sueco em 2018 em prol da mudança climática fez com que, uma jovem de 15 anos (na altura), chegasse à ribalta. A atividade dela em fazer greve à sexta-feira ajudou a esse aumento exponencial da atenção perante a jovem sueca. Ao dia de hoje, a jovem viaja pelo mundo, dá palestras na ONU (reservada aos mais puros altruístas) em prol da mudança da atitude da sociedade perante o meio ambiente e viaja num barco “amigo do ambiente”.

As atitudes desta criança levaram a que milhões de pessoas pelo mundo fora saíssem à rua em prol da mensagem transmitida pela jovem prodígio. Até aqui nada de mais. Quem poderia, com dois dedos de testa, queixar-se de uma jovem altruísta a tentar lutar pelo ambiente? Só “deniers” das alterações climáticas e pessoas pagas pelas indústrias poluentes – preferencialmente se forem politicamente de direita. Mas não. Não é preciso negar as alterações climáticas nem ser pago pelas indústrias poluentes para se perceber que algo não está bem com a atuação da jovem Greta. E não é nada pessoal e muito menos contra o meio ambiente. 

A mensagem dela está inegavelmente certa. Só alguém que queria escamotear os problemas ambientais que o nosso planeta tem é que é capaz de dizer que tal não acontece. Acontece e é grave, e essa é a maior vitória da Greta – o alerta generalizado para esse problema. Contudo, e como é típico do ser humano, o exagero tomou conta da situação. A jovem sueca é permanentemente perseguida pelos meios de comunicação social. É acompanhada, gravada, ouvida e reproduzida num looping de 24/7. Chega a ser angustiante – pelo menos em Portugal – ouvir um jornal pois só se fala da jovem que corre o mundo para o salvar. A atenção é dada, de forma esdrúxula, à sua pessoa como se a persona “Greta” fosse importante para a resolução do (talvez) maior problema da atualidade. Mas não é. Não é a Greta que importa. O que importa é a sua mensagem e os cuidados que temos que ter com o ambiente.

A pessoa que é a Greta é totalmente insignificante, mas de alguma forma os meios de comunicação social não a largam, para gosto daqueles que a defendem com unhas e dentes. Estes veem nela algum tipo de divindade que ultrapassa a razão humana. Alguém que nasceu para mudar o mundo, só equiparável a seres messiânicos. Por isso mesmo é que a divinização da persona não é boa, tal como não é bom qualquer exagero. E é por isso que a opinião sobre ela é de extremos. Entre amores quase carnais e ódios de cortar o coração, a opinião sobre a Greta leva aos mais variados insultos entre quem a defende e quem acha que ela não passa de uma marionete. O problema não é a Greta, é o que fazem dela. 

Já aqui referi a importância que ela teve nos alertas que lançou, mas a divinização de uma jovem de 16 anos, como qualquer exagero, leva a que não se veja o que está à frente dos olhos. Leva a que não se veja a razão e que se perceba quando está na hora de parar com os abusos e pôr limites. A adoração em massa, e acho que não preciso de explicar, já levou a que muito boa gente tomasse atitudes que, de forma ponderada e racional não tomaria. Levou a exageros que mais tarde, com paciência e racionalidade, envergonharam aqueles que não perceberam - ou não quiseram perceber - os resultados reais por causa do calor do momento e do entusiasmo em prol da causa. Como a minha falecida avó costumava dizer-me em criança quando estava demasiado exaltado com algo que gostava bastante - “Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, e nesta situação não é diferente.

É mais que claro que algo precisa de ser feito. Que é preciso ouvir quem se preocupa com as alterações climáticas, mas também é preciso ponderação na tomada de decisões. Não me parece que uma súbita onda de pedidos de anúncios de emergência climática – caso do Parlamento Europeu é um dos mais recentes - e discursos inflamados  - “Vocês roubaram meus sonhos e minha infância" - sejam solução para o que quer que seja. Aliás, só os discursos da jovem Greta não vão mudar rigorosamente nada, até porque já cumpriram - e bem - grande parte da sua função – alertar.

É preciso, efetivamente, ouvir aqueles que estudam este assunto há décadas. Ouvir académicos e especialistas de toda a espécie sobre estes assuntos. É preciso debater e é preciso perguntar. É preciso o diálogo entre os políticos e a sociedade civil. Contudo é também preciso filtrar. É preciso perceber aquilo que podemos fazer dadas as circunstâncias e não entrar em devaneios e exageros em nome de uma causa, porque apesar de ser uma causa bastante importante, não é a única.

Acima de tudo é precisa calma, ponderação e, de preferência, pouca histeria. A divinização de figuras nunca deu bom resultado e desta vez não vai ser diferente.

 

Pedro

 

5da83187045a31339605b142.jpeg                                                                                                                                                                 Imagem de Getty Images

 

1 comentário

Comentar post