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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

A divinização da Greta

prolibertate, 06.12.19

O assunto da degradação do meio ambiente não é novidade para ninguém, principalmente nas últimas décadas onde vários cientistas, ativistas e organizações alertaram para os problemas que a ação do homem tem vindo a causar ao meio ambiente. Contudo, nos últimos tempos, temos assistido à ascensão meteórica de uma criança que abraçou o discurso da salvação climática para alertar a sociedade civil para um problema que os próprios cientistas não conseguiram com que antes fizesse eco na nossa sociedade.

A atividade de Greta frente ao Parlamento Sueco em 2018 em prol da mudança climática fez com que, uma jovem de 15 anos (na altura), chegasse à ribalta. A atividade dela em fazer greve à sexta-feira ajudou a esse aumento exponencial da atenção perante a jovem sueca. Ao dia de hoje, a jovem viaja pelo mundo, dá palestras na ONU (reservada aos mais puros altruístas) em prol da mudança da atitude da sociedade perante o meio ambiente e viaja num barco “amigo do ambiente”.

As atitudes desta criança levaram a que milhões de pessoas pelo mundo fora saíssem à rua em prol da mensagem transmitida pela jovem prodígio. Até aqui nada de mais. Quem poderia, com dois dedos de testa, queixar-se de uma jovem altruísta a tentar lutar pelo ambiente? Só “deniers” das alterações climáticas e pessoas pagas pelas indústrias poluentes – preferencialmente se forem politicamente de direita. Mas não. Não é preciso negar as alterações climáticas nem ser pago pelas indústrias poluentes para se perceber que algo não está bem com a atuação da jovem Greta. E não é nada pessoal e muito menos contra o meio ambiente. 

A mensagem dela está inegavelmente certa. Só alguém que queria escamotear os problemas ambientais que o nosso planeta tem é que é capaz de dizer que tal não acontece. Acontece e é grave, e essa é a maior vitória da Greta – o alerta generalizado para esse problema. Contudo, e como é típico do ser humano, o exagero tomou conta da situação. A jovem sueca é permanentemente perseguida pelos meios de comunicação social. É acompanhada, gravada, ouvida e reproduzida num looping de 24/7. Chega a ser angustiante – pelo menos em Portugal – ouvir um jornal pois só se fala da jovem que corre o mundo para o salvar. A atenção é dada, de forma esdrúxula, à sua pessoa como se a persona “Greta” fosse importante para a resolução do (talvez) maior problema da atualidade. Mas não é. Não é a Greta que importa. O que importa é a sua mensagem e os cuidados que temos que ter com o ambiente.

A pessoa que é a Greta é totalmente insignificante, mas de alguma forma os meios de comunicação social não a largam, para gosto daqueles que a defendem com unhas e dentes. Estes veem nela algum tipo de divindade que ultrapassa a razão humana. Alguém que nasceu para mudar o mundo, só equiparável a seres messiânicos. Por isso mesmo é que a divinização da persona não é boa, tal como não é bom qualquer exagero. E é por isso que a opinião sobre ela é de extremos. Entre amores quase carnais e ódios de cortar o coração, a opinião sobre a Greta leva aos mais variados insultos entre quem a defende e quem acha que ela não passa de uma marionete. O problema não é a Greta, é o que fazem dela. 

Já aqui referi a importância que ela teve nos alertas que lançou, mas a divinização de uma jovem de 16 anos, como qualquer exagero, leva a que não se veja o que está à frente dos olhos. Leva a que não se veja a razão e que se perceba quando está na hora de parar com os abusos e pôr limites. A adoração em massa, e acho que não preciso de explicar, já levou a que muito boa gente tomasse atitudes que, de forma ponderada e racional não tomaria. Levou a exageros que mais tarde, com paciência e racionalidade, envergonharam aqueles que não perceberam - ou não quiseram perceber - os resultados reais por causa do calor do momento e do entusiasmo em prol da causa. Como a minha falecida avó costumava dizer-me em criança quando estava demasiado exaltado com algo que gostava bastante - “Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”, e nesta situação não é diferente.

É mais que claro que algo precisa de ser feito. Que é preciso ouvir quem se preocupa com as alterações climáticas, mas também é preciso ponderação na tomada de decisões. Não me parece que uma súbita onda de pedidos de anúncios de emergência climática – caso do Parlamento Europeu é um dos mais recentes - e discursos inflamados  - “Vocês roubaram meus sonhos e minha infância" - sejam solução para o que quer que seja. Aliás, só os discursos da jovem Greta não vão mudar rigorosamente nada, até porque já cumpriram - e bem - grande parte da sua função – alertar.

É preciso, efetivamente, ouvir aqueles que estudam este assunto há décadas. Ouvir académicos e especialistas de toda a espécie sobre estes assuntos. É preciso debater e é preciso perguntar. É preciso o diálogo entre os políticos e a sociedade civil. Contudo é também preciso filtrar. É preciso perceber aquilo que podemos fazer dadas as circunstâncias e não entrar em devaneios e exageros em nome de uma causa, porque apesar de ser uma causa bastante importante, não é a única.

Acima de tudo é precisa calma, ponderação e, de preferência, pouca histeria. A divinização de figuras nunca deu bom resultado e desta vez não vai ser diferente.

 

Pedro

 

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O caminho para a sustentabilidade do SNS

prolibertate, 03.12.19

De cada vez que um populista comenta o estado do Serviço Nacional de Saúde morre um gatinho. Baseados em indicadores que não percebem, estabelecem causalidades brutas, atiram números e contas ao ar, falam de custos de formação sem entender no quê que esta consiste, engasgam-se com tanta hora de espera, aclamam uma gratuitidade verosímil e babam-se em elogios a um sistema que está longe de ser sustentável.

Gostaria de esclarecer que o principal problema do SNS é a falta de saúde dos portugueses. Parece óbvio, não? E um português, para além de um contribuinte e de um eleitor, é um ser humano, com um código genético e um estilo de vida único, e que por isso pode chegar aos 100 anos sem ter gasto um único cêntimo em Saúde, apesar de ter pago toda a vida impostos, ou ter dois meses de vida e precisar de um tratamento de 2 milhões de euros. E é tendo em conta esta multiplicidade de fatores, que não cabe em folhas de Excel nem é 100% expressa por indicadores, que as opiniões devem ser dadas e as decisões políticas tomadas.

O segundo problema do SNS, é a sua má gestão, e começo pelo seu gestor: Marta Temido. Começo pela senhora ministra, não porque considere que ela tenha culpa, pois apesar das muitas barbaridades ditas por si no pouco tempo que ocupa o cargo, esta não chega a ser uma frase sequer na história da Sistema de Saúde Português, nem, no meu ponto de vista, alguma vez será porque nunca foi uma profissional de saúde, nunca foi estudante de medicina ou de enfermagem, nunca lidou com as consequências diretas de faltas de recursos, nunca chorou a morte de um doente que descompensou por ela não ter chegado a tempo, nunca teve de ser família daqueles que foram abandonados nos hospitais. E isto parece uma pieguice, mas se aqueles “nunca” pudessem ser substituídos por “já”, creio que não haveria tanta leviandade a fazer certas promessas como a da ala Pediátrica do São João ou raciocínios reles como “os estudantes de medicina são formados pelo público, os especialistas são formados pelo público por isso vamos obrigá-los a ficar no SNS para pagar o que devem”. Apesar de tudo isto, a única coisa má que lhe posso apontar é a falta de capacidade ou coragem de corrigir o que está mal há muitos anos.

Identifico assim três desafios para esta legislatura com o alerta que os seus resultados só serão notados a longo prazo e que não são de todo os únicos. O primeiro desafio, sem dúvida, é o planeamento. Temos uma formação de profissionais de saúde de excelência, cobiçada além-fronteiras, mas que não está a ser rentabilizada por falta de planeamento! Atiram-se números ao ar quando se fala de quanto custa formar um médico e um especialista e parece não haver interesse em criar um grupo de trabalho com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior para averiguar e resolver as falhas. Toda a gente “alerta” que não há médicos, mas também não há nenhum trabalho que caracterize a população, perceba as suas reais necessidades para ser possível atuar com precisão e não haver desperdício de recursos. Ainda sobre este ponto, há uma falta de informação injustificável: enquanto não soubermos exatamente de que forma é que cada hospital gere a mesma patologia, e com isto falo de procedimentos, custos e outcomes, para no fim ser possível comparar resultados, perceber qual é o melhor modelo e replicá-lo, estaremos a esbanjar o dinheiro que não temos em egos e serviços não eficazes.

O segundo ponto trata-se do acesso à saúde. Existem 11 milhões de portugueses, se estes 11 milhões quisessem ou tivessem de usar o SNS seria uma catástrofe porque não há capacidade de resposta. A população depende dos privados: os que podem usá-los, os que não podem, mas conseguem aceder ao público mais facilmente porque nem toda a população doente vai lá parar e os que vão para o privado com o dinheiro público porque o SNS não teve capacidade de resposta para eles. Muitos também não conseguem sequer chegar aos hospitais ora porque não tem forma de se deslocar até lá, ora porque morreram primeiro por falta de acompanhamento médico, por desvalorização da doença e irresponsabilidade própria ou por causas biológicas não evitáveis. Uma das soluções que identifico para melhorar o acesso, não é desatar a construir hospitais, mas sim seria valorizar e melhorar das unidades de saúde primárias e facilitar o deslocamento.  

Por último, para abordar o terceiro desafio, gostaria de voltar ao inicio e reforçar que todos gastos em saúde se devem a DOENÇA. Qual é a percentagem do Orçamento de estado que está a ser destinada para a PREVENÇÃO da mesma e PROMOÇÃO da saúde? 1%. É urgente diminuir a obesidade, o tabagismo e alcoolismo, melhor a qualidade do ambiente, monitorizar e rastrear melhor, instruir mais a população e isto não se alcança a longo prazo a retirar a liberdade de compra aumentando impostos, mas sim a sensibilizar a população para a importância dos hábitos de vida saudáveis.  

Para concluir, a saúde não é um negócio, mas devia ser gerida com tal: auditar todo o tipo de gestão, despedir incompetentes e premiar a competência, reduzir a carga de doença na população para diminuir os gastos, trabalhar para o lucro que é a melhoria da qualidade de vidas dos portugueses e não permitir que ideologias cegas, populismos baratos travem a evolução para modelos de gestão mais sustentáveis. 

 

Francisca

Epítome de, e a, Churchill.

prolibertate, 30.11.19

A 30 de novembro de 1874, nascia um dos maiores Europeus da história do Velho Continente. Esta pequena, e em princípio não muito boa, epítome é sobre e para Winston Churchill, símbolo da resistência ao totalitarismo do século XX.

Estudante mediano, literado fora de série e com um gosto jubilar pelas palavras, chegou ao Poder à custa, não só mas também, da covardia de outros depois de falhar algumas vezes na vida.

Ao chegar, prometeu sangue, suor e lágrimas [até dizia que nada mais tinha a oferecer], e jurou nunca se render perante a ameaça ao estilo de vida do mundo livre.

Sem qualquer apreço por hipotéticas negociações com Hitler, que considerava asséticas e humilhantes, vociferou os ouvidos da House Of Commons com o épico discurso em que prometeu levar a Ilha Britânica a lutar nos campos, nas praias, no ar, na terra, e no mar; fosse a que custo fosse [afinal de contas, o nosso amigo Hitler estava entretido, apenas a umas centenas de milhas, a dominar os Franceses]. Audaz, e com uma oposição interna ácida, regozijou em tom de lamento que se fosse necessário, o Reino Unido lutaria por anos; se necessário, sozinho.

Com a Europa na penumbra das garras da Wehrmacht no início da década de 40, era dos poucos políticos Britânicos a acreditar na vitória do Reino Unido, id est, na vitória da democracia, na vitória do Ocidente per se.

Valha-nos o irascível santo das ironias políticas: sai derrotado das eleições de 1945; talvez se tenha aplicado a velha regra de que “quem faz a guerra, não pode fazer a paz”. Mas até aqui há ironia: Churchill foi dos grandes percursores e entusiastas de uma Europa Unida, talvez porque a história lhe havia de dar razão; em 1961, o mundo entra numa fase divisionista, causada por uma “cortina de ferro” que o próprio havia previsto; fase essa que se juntou às poucas vezes em que a incipiência da divisão entre bons e maus das histórias para crianças fez o mínimo de sentido.

Com mais tempo - ou se calhar só com mais paciência e necessidade – dedicou-se às artes, e ganhou o prémio Nobel da Literatura em 1953.

Mestre no ofício de juntar palavras, corrosivo no humor - a atividade mais transcendente que um homem pode executar na sua inglória e irredutível imanência - e com um carisma que colocava qualquer aspirante a ditador de pé atrás, ganhou poucas vezes na vida, mas quando ganhou fê-lo com esplendor e grandiosidade. A sua derradeira vitória foi aurora de paz.

Winston Churchill esteve do lado certo da história. Devido à sua pessoa, a civilização Europeia permaneceu com o espírito livre intocável, e, se calhar, até o aprofundou. Por fim, graças a Winston, ganhamos nós: filhos aclamados da ordem proporcionada pelo sistema que é o pior que o homem já criou, à exceção de todos os outros.

 

Luís.

 

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Não precisamos de tantos partidos (ainda menos na AR)

prolibertate, 29.11.19

Para a realidade política portuguesa, somos um país, a meu ver, com demasiados partidos.

Mas, afinal, quantos partidos temos em Portugal? Nos dias que vão correndo, começa a ser difícil dar resposta a tal questão. Fazendo uma pesquisa rápida, percebemos que o número de partidos aceites pelo Tribunal Constitucional tem crescido significativamente, se tivermos em consideração o espaço temporal dos últimos 10 anos. Desde 2009, surgiram 13 novos partidos (incluindo os 4 últimos partidos que conseguiram ser eleitos para a Assembleia da República, entre as duas passadas eleições). Juntando a todos estes, numa lista onde figuram partidos como o PAN, a IL, o LIVRE, o Chega! e a Aliança, há ainda, para além de muitos outros, o Volt Portugal, que, recentemente, foram os últimos a entregar junto do Tribunal Constitucional um número de assinaturas superior ao exigido de modo a ser oficializado como partido. Numa fase mais embrionária (como quem diz, movimentos que ainda não reuniram as condições necessárias para se conseguiram formalizar como partidos, há ainda a Democracia 21- que já mais começa a parecer um eterno ‘candidato’ a partido-, por exemplo). Ora, se contarmos já com o Volt para esta equação, temos 26 partidos políticos. Podemos olhar para este número de duas formas, através da lente popular do “copo meio cheio vs copo meio vazio”; por um lado, o do copo meio cheio, este número de partidos poderá (ou poderia) ser resultado de uma enorme dinâmica por parte da sociedade portuguesa, que tanto anseia em encontrar um partido onde cada pessoa se reveja da forma mais total (ou aproximadamente) possível; por outro lado (e confesso que escrevi a anterior argumentação com alguma dose de ironia e descrença) perante os níveis caóticos verificados na abstenção, penso que, quando se fala de política, podemos falar de tudo menos de dinâmica em Portugal. Isto, então, leva-nos à visão do copo meio vazio. Neste sentido, há duas realidades possíveis: ora os partidos se repetem bastante e se diferenciam pouco a nível ideológico, ora são completamente vazios nesse mesmo nível ideológico. Como as coisas nunca são apenas divididas entre preto e branco, estas duas realidades costumam andar de mãos dadas no sentido complementar. É, exatamente, isso que se verifica em vários partidos políticos portugueses. Uns são cópias quase exatas (irmãos gémeos que andam constantemente à luta na caça ao voto, que tantas e tantas vezes falham de forma bem redonda e conjunta), enquanto outros são também eles iguais mas com a particularidade de serem vazios de qualquer conteúdo significante e válido, na minha perspetiva, para serem chamados de partidos). São iguais no vazio, ora portanto.

O próprio conceito de Partido Político altera academicamente, consoante o autor que tivermos em conta. Não obstante, acho curioso referir a conceção que o próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tem sobre os critérios necessários para um Partido ser considerado como tal, nomeadamente a necessidade dos mesmos serem duradouros (o que nos poderá colocar a questão óbvia referente aos partidos de causa), se candidatarem a eleições e participarem no exercício de, ou mesmo exercerem, poder. A meu ver, temos de conseguir ver uma coisa simples, nos partidos políticos: uma visão suficientemente abrangente para a sociedade. Deste modo, temos de ser capazes de colocar o partido político no espetro político -isto também decorre da minha convicção que o espetro tradicional Esquerda-Direita não está desatualizado, como tanta gente já começa defender, por considerar que Esquerda e Direita são termos que também se vão adaptando a novas realidades e, quando os tempos mudam, estes termos, mantendo a sua raiz, também acompanham essa mesma passagem. Mas isto é toda uma outra conversa na qual não tenho interesse, para os efeitos deste artigo. Talvez fique para depois. Recuperando a linha de pensamento, tal colocação do partido no espetro não precisa de ser a colagem de um rótulo muito concreto no partido mas tem de servir como “bússola” política, de modo a saber onde o partido se coloca, mesmo tendo em conta as suas próprias variações, que, em boa verdade, nunca podem ser tão significativas ao ponto de um novo reposicionamento colocar totalmente em causa a própria coerência passada do partido. Os próprios partidos catch-all, e podemos tomar os exemplos do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, por mais variações que possam ter, devido a diferentes fações internas que se vão sucedendo na liderança desses mesmos partidos, nunca se materializam em reposicionamentos ideológicos assim tão diferentes quanto isso ao ponto de se tornarem contraditórios. Em termos eleitorais, é certo que nem todos os partidos concorrem a eleições, sejam elas legislativas ou autárquicas. A título de curiosidade, nas últimas eleições legislativas tivemos 21 candidaturas. Também muito se discute, a nível académico, a área de atuação dos partidos. Alguns autores, nomeadamente, Jean Charlot, sugerem que um partido político, para poder ser considerado como tal na sua plenitude, deve atuar tanto a nível nacional como a nível regional/local, ou seja, devem ser “completos”. Nesta ótica, Jean Charlot não consideraria como partido político aqueles que se candidatam a eleições legislativas, mas não a eleições autárquicas, como é o caso da realidade portuguesa. Creio que não irei tão longe. Acredito que um partido político deve, como já referi neste mesmo artigo, ter uma visão geral da sociedade. Tal é refletido no programa eleitoral que determinado partido apresente nas eleições legislativas; no que toca às eleições autárquicas, são uma realidade muito diferente e uma candidatura a tais eleições são influenciadas pela maior ou menor cimentação política de determinado partido na região/localidade em causa, pela possibilidade de movimentos não partidários se poderem candidatar e pela própria estratégia do partido em causa, obviamente.

Dentro da Assembleia da República, temos, atualmente, 10 partidos. Nas últimas eleições, entraram 3 novos partidos, sendo eles o Chega!, a Iniciativa Liberal e o LIVRE, que elegeram, apenas, 1 deputado cada. O PAN, que cresceu eleitoralmente de modo a eleger um grupo parlamentar de 4 deputados, tinha entrado na Assembleia da República nas eleições imediatamente anteriores, em 2015, com a eleição de apenas um deputado. Em boa verdade, não creio que tal realidade signifique, nesta presente legislatura, uma fragmentação de facto. Justifico isto de uma maneira muito simples: o Chega! e a Iniciativa Liberal votarão sempre mais à Direita, em oposição ao governo e à atual maioria de Esquerda; o LIVRE votará sempre à Esquerda e não antecipo que se venha a opor ao Governo ou à maioria vigente. De qualquer forma, não vai ser o deputado único de cada partido a gerar maior instabilidade na Assembleia da República, certamente. Ideologicamente, percebemos com relativa facilidade que o Chega! e a Iniciativa Liberal oferecem maior diversidade à Direita do que aquilo que o LIVRE oferece à Esquerda. No entanto, o ponto é o seguinte: esta ainda ‘não-fragmentação’ pode ser apenas isso mesmo, uma ainda não-fragmentação. Se tal vier a acontecer em futuras eleições, o que tem de ser, necessariamente, através de um crescimento dos atuais pequenos partidos, seguido da consequência lógica da redução dos atuais maiores grupos parlamentares, aí, sim, podemos assistir a uma fragmentação política. E de fragmentações políticas que tornam, inclusive, o processo de formação de governos quase num jogo extremamente minucioso e difícil de xadrez político, estamos já cheios de exemplos.

Por fim, é certo que alguns dos novos partidos surgiram pela necessidade de maior representação ideológica (de quem se juntou a eles, diga-se), que alguns dos partidos já estabelecidos não estavam a oferecer. Tais exemplos são perfeitamente verificáveis entre os partidos, à Direita, que entraram recentemente na AR. No entanto, a (excessiva) ideologia tem custos associados. Um deles é a eventual falta de pragmatismo. Quando um partido se fecha ideologicamente na sua respetiva bolha, perde capacidade de perspetiva. Perdendo isto, deixa de se conseguir adaptar a novas situações com novas necessidades. Deixa de ser pragmático e passa a ser uma cassete (ou um disco riscado, se quisermos), como alguns partidos já o são. Numa altura em que o mundo muda constantemente a uma velocidade astronómica, não podemos, de maneira alguma, abdicar do pragmatismo. Nem sempre vamos dever optar pelo conservadorismo, tal como nem sempre vamos dever optar pelo progressismo. Nem sempre a economia se deverá reger por economias puramente liberais, tal como nem sempre vai precisar da mão do Estado. As ideologias não são um problema. O problema existe quando os partidos se fecham em autênticas bolhas ideológicas e se esquecem do pragmatismo. E deste tipo de exemplos também temos que chegue, inclusive em Portugal. Não serve isto para defender um sistema bipartidário. Defendo, sim, que, com poucos partidos, estes poderão ocupar espaços ideológicos suficientemente abrangentes para nunca deixarem de ser pragmáticos. Quando perdemos esta valência, perdemos oportunidades de fazer reformas estruturais que o país precisa porque, por questões de estratégia política, deixa de ser possível fazer tais compromissos, pelo receio constante de se perder o apoio importante de alguns partidos que possam, em determinada circunstância, ajudar a segurar uma maioria parlamentar e governativa, concomitantemente sendo ideologicamente inamovíveis.

Nesta linha de pensamento, não precisamos, em Portugal, de tantos partidos políticos, muito menos na Assembleia da República. Não precisamos nem é aconselhável.

 

Filipe S. Fernandes

De quem é o voto dela?

prolibertate, 28.11.19

Em quem votaste a 6 de outubro de 2019? No partido com que mais te identificas? No candidato a primeiro-ministro que achas carismático, no cabeça de lista reputado do teu círculo, noutro candidato? Pois, nem sei bem.

Isto a propósito da ensurdecedora crise nacional e muito portuguesa que se instalou à custa de uns 0.4% da Assembleia da República, representantes de pouco menos de 23 mil votos no círculo eleitoral de Lisboa, e uns 99.6% do círculo eleitoral do Twitter. Alguns eleitores do Livre poderão hoje arrepender-se do voto - não sei se o fazem ou não, nem é para mim relevante - não podem é dizer que foram enganados em campanha eleitoral. Por outro lado, eleição feita, é verdade que nos lugares de representação se faz muito da política, cada vez menos e mais pelo mediatismo, mas, acima de tudo o resto, convém saber quem se representa e por que causas. Se a agenda de um deputado único não corresponde à do partido, a ruína começou quando este foi escolhido para uma candidatura de destaque.

Não vou mais por aí. Se por muitas ocasiões podemos ler, pensar ou escrever sobre reforma do sistema eleitoral, a última vez que surgiu um mote tão pertinente, ainda o queijo limiano era limiano. Sendo verdade que os sentimentos, reflexões e análises que devem servir de base a um voto dependem muito de um fatalismo geográfico, de onde a nossa mesa de voto se lembrou de brotar, também o é que a nossa Democracia passa hoje por pré-fabricada, obscura e imposta por uma pseudo-aristocracia pouco nobre.

Partindo de um princípio de honestidade política, i.e. de que a candidatura individual de Joacine enquanto “all-in” do Livre não considerou interesses aritméticos ou eleitoralmente pragmáticos, mas sim conteúdos coerentes, o cenário pede clarificações. A responsabilização pública na Democracia representativa não é de caráter opcional. Candidatos a deputados, ainda que na mesma lista, não são nem devem ser uniformes ou meros ecos partidários, mas devem sempre lealdade a um programa e prioridades políticas apresentados aos seus eleitores.

O mesmo dilema se vive de uma forma extraordinariamente distinta e mais grave nos grandes partidos, até mais no PSD do que no PS (top desalinhados, via hemiciclo). A disciplina de voto faz todo o sentido em matérias claramente(!) inscritas no programa eleitoral - seja este o pessoal, o de círculo ou o partidário - ou naquelas das quais depende o interesse do país de uma forma estrutural e urgente. Tolerar voto preguiçoso, seguidista e não exigir que cada deputado tenha um pensamento próprio e publicado para cada matéria relevante (do qual deverá abdicar para efeitos de representação, quando claros) é permitir que a cada quatro anos a pobreza do debate e do QI per capita naquela câmara afaste até o eleitor mais interessado. Se aí chegarmos, é bar aberto para aqueles nossos condutores.

Não é por discordar quase sílaba por sílaba da ação política da deputada, no conteúdo e cada vez mais na forma, que defenderei que se lhe possa condicionar a última palavra em cada votação no Hemiciclo. Todos os restantes envolvidos devem ficar na infeliz condição de sentir a responsabilidade por esta eleição sem conseguir mais definir.

O peso na consciência não se decreta: até à próxima eleição, a deputada Joacine Katar Moreira tem direito de voto e só a própria pode abdicar dele.

 

RG

O que há numa Comissão?

prolibertate, 27.11.19

Quando, em julho, Ursula von der Leyen se dirigiu pela primeira vez aos membros do Parlamento de Estrasburgo que haveriam de votar a sua investidura, tratou de prometer medidas populares aos populares, medidas socialistas aos socialistas, medidas verdes aos verdes e uma luta silente aos marginais. De outra forma, apresentou-se à política europeia numa posição de fragilidade, prometendo o possível para ser absolutamente consensual durante os cinco anos de mandato, numa das mais comoventes juras de inutilidade de que há memória.

Essa é a função de um presidente da Comissão Europeia no desconfortável período entre a designação pelo Conselho e a investidura parlamentar: não ofender, mas também não apaixonar, essencialmente ficar sossegado à espera da força de pêndulo do movimento alheio. O trabalho de von der Leyen é mais fácil do que o de Juncker, na medida em que não encontra vários países sobre assistência financeira de dimensão existencial — o que tende a atrair multidões e chamas capazes de incomodar até o Berlaymont — e não há hoje, como definitivamente havia em 2014, uma sensação geral de que a União corria o risco de acabar; mas é também mais difícil, na medida em que se lhe apresentam caminhos mais duros até uma maioria, que passa a ter de incluir verdes ou liberais, e porque, por manifesta insensibilidade política, decidiu já arcar sozinha com a responsabilidade de uma política ambiental revolucionária para todo o continente. Essencialmente, a transição climática (julgo ser este o termo atualmente aceite pela novilíngua) só poderá produzir efeitos positivos apresentáveis daqui a 20 ou 50 anos, mas os 40 milhões de polacos podem já amanhã ficar muito chateados por lhes tentarem desligar os aquecedores alimentados a carvão — o Plano Juncker, grande prioridade mediática da última comissão, era um simpático programa de investimento num período de recuperação económica que se revelou rapidamente popular. 

A figura de UvdL é também desafiante: é uma mulher alemã, privilegiada e pouco carismática. Nos cinco meses que passaram desde a sua escolha pelo Conselho (entretanto, do spitzenkandidat ficamos apenas com a parte germânica), dedicou-se, aparentemente, a domar o monstro burocrático de Bruxelas, assim garantindo que continua a ser conhecida por apenas uma dúzia de cidadãos europeus. A União Europeia não tem palácios isolados em rochedos costeiros, mas tem edifícios modernos e encantadoramente climatizados, que já antes revelaram um efeito atrativo que condenou políticos promissores ao desterro. Esse será um desafio para uma Comissão que se quer “geopolítica” — o que normalmente significa ter funcionários administrativos a falar com funcionários administrativos, interrompidos ocasionalmente por políticos a falar com políticos. 

Uma palavra final para o orçamento, sobre o qual a Comissão tem pouca capacidade de decisão, mas do qual depende como um construtor civil nos tempos socráticos. A discussão parlamentar promete ser uma confusão entre apparatchiki nacionais e europeus, seguida pela confirmação do Conselho — os senhores e senhoras que efetivamente disponibilizam o dinheiro. Conseguir financiar mais projetos e novas prioridades é sempre o objetivo de uma nova Comissão, mas é no escasso poder de determinação orçamental que está uma das grandes peculiaridades do “executivo europeu”. Neste ponto, o facto de vdL não ser uma figura política relevante (pelo menos até ao momento em que se torna presidente da Comissão) pode diminuir o poder fáctico do Berlaymont. Não há como negar: com mais ou menos ginástica, é desse acordo que depende o programa de Ursula von der Leyen para a Europa. 

Money talks. Ou l’argent parle, que será mais apropriado. 

 

João Diogo Barbosa

O liberalismo esquecido no PSD

prolibertate, 25.11.19

Foi durante os últimos anos do Estado Novo que surgiu a chamada “Ala Liberal” (e não “Ala Social Democrata”) na Assembleia Nacional, na qual se encontrava a figura marcante de Francisco Sá Carneiro. Mais tarde, em maio de 1974, o advogado portuense, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota fundam o PPD - Partido Popular Democrático (e não Partido Social Democrata).

Se, por um lado, não temos base verídica para saber se existiu dúvidas quanto ao nome a dar à “ala”, já quanto à denominação do partido existe justificação. O nome de Partido Popular Democrático foi, num primeiro momento, decidido como segunda escolha, uma vez que Sá Carneiro queria que o nome fosse “Social-Democrata”. Tal aconteceu devido ao facto de outros partidos terem agarrado para si esse nome, como por exemplo o Partido Cristão Social Democrata. No entanto, este e outros partidos logo se extinguiram, permitindo a Sá Carneiro retomar para si o termo ambicionado, uma vez que refletia a ideologia que ele e os restantes companheiros professavam.

A nível europeu, o PSD, por vontade de Sá Carneiro, teria sido colocado na Internacional Socialista, não fosse o bloqueio de Mário Soares, que havia chegado primeiro. Impossibilitada essa hipótese, o partido manteve-se até 1996 na ALDE (Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa), grupo ao qual alguns hoje repudiariam pertencer. Contudo, da vontade inicial socialista à passagem liberal europeia, o PSD acabou por ser levado para o PPE (Partido Popular Europeu), grupo do centro-direita democrático europeu. E o principal promotor da adesão do PSD ao PPE foi o “rigorosamente ao centro” Marcelo Rebelo de Sousa.

Até aqui: contradições ou pragmatismo face às circunstâncias?

Desde já vemos que logo no início os termos “liberal” e “social-democracia” andaram ligados. E tal reflete-se na história do partido, a qual é bem sintetizada no seu site. O PSD tem três linhas de pensamento (choque!, é mais do que uma!) “distintas embora complementares”: uma linha católica-social, uma linha social-liberal (ai o metuendo termo!) e uma linha tecnocrática-social. Mais à frente é-nos dito que os valores do partido regem-se pela “visão da liberdade humana, da sociedade, da atividade político e do Estado” (liberalismo, és tu?).

Mas convém notar mais: “Um partido que, sendo social-democrata, valoriza o liberalismo político e a livre iniciativa caracterizadora de uma economia aberta de mercado [liberalismo económico]”. Ora, um partido que se rege logicamente pelo liberalismo social e ainda pelo liberalismo político e económico acaso não é liberal? Que diabos, é o mundo ao contrário!

Como pôde/pode o atual presidente do PSD dizer que o partido “não é liberal” ou “não cabem cá liberais”, como várias vezes ouvimos? Como pode Rui Rio ter chegado a afirmar que “todos aqueles que discordam do ponto de vista estrutural [leia-se ideológico] é mais coerente saírem” do partido? Qual será o próximo passo a tomar? Colocar nas fichas de militância quadradinhos com as várias opções ideológicas, a fim de saber se se aceita um novo militante ou não, dependendo se este acerta com a cruz no quadrado da “social-democracia pura”?

Há quem diga que o PSD é um albergue espanhol… A minha resposta a esse comentário é um “q.b.”. De facto, cabem sociais-democratas mais ou menos puros, liberais, conservadores. E foi sempre esse q.b. que permitiu ao PSD ganhar eleições, essa união, essa federação de tudo o que os une em virtude do pouco que os separa. Lembremo-nos da formação da Aliança Democrática a 5 de julho de 1979 em que Sá Carneiro se aliou à sua direita, ao CDS e ao PPM. Por puritanismo ideológico outros talvez se tivessem aliado ao PS.

É, pois, evidente que há da parte do atual líder uma negação daquilo que é a história do partido, do seu pragmatismo realista e da sua agregação de várias tendências. Um partido grande como o PSD não pode nem deve ser completamente homogéneo e dogmático, puritano e acantonado. O ser humano nas suas relações com os demais assim não o é; está sujeito à evolução, à crítica, à mudança, ao aprofundamento e maturidade por via dos desafios que quotidianamente se lhe colocam. O PSD tem de ser o espelho da generalidade dos portugueses.

 

Marco António

Pedro Sánchez apostou no cavalo errado.

prolibertate, 18.11.19

 

As eleições espanholas trouxeram um resultado esperado mas que ninguém desejava – mais instabilidade. É verdade que a instabilidade é, desde 2010, um ingrediente em abundância na política espanhola, principalmente dada a situação com a Catalunha. Contudo, e para ajudar ao problema, Pedro Sánchez e o seu governo, que tem surfado na onda da indecisão, contribuiram, de forma significativa, para o aguçar desde resultado.

Ora vejamos os factos. Desde junho de 2018, Pedro Sánchez é o presidente do Governo espanhol. Desde lá, a governabilidade de Espanha ficou impossível. Dadas as circunstâncias em que chega ao poder, o congresso espanhol estava fragmentado para o PSOE continuar a governar, o que levou à necessidade de eleições em abril de 2019. Sem aparente resolução para a crise catalã (que, em bom rigor, ninguém parece ter), mas com a promessa de estabilidade, Pedro Sánchez ganha as eleições com 28,7% dos votos, seguido de um Partido Popular em queda e de um Ciudadanos tendencialmente forte com 16,7% e 15,9% dos votos respetivamente. O Partido à esquerda do PSOE, o Podemos, conseguiu 14,3% dos votos.

Mesmo com este resultado – uma vitória aceitável sobre o principal rival político o PP - Pedro Sánchez não conseguiu a maioria necessária para governar. O Partido Popular e Ciudadanos, como oposição, não apoiaram nem facilitaram este governo e o acordo com o Podemos para conseguir governar também não chegou a bom porto. Nos meses seguintes, enquanto estas negociações com o Podemos decorriam, o governo de Pedro Sánchez aumentou o salário mínimo espanhol em 22% para o ano de 2019 - o que lhe deu algum capital político perante a população.

Quanto à situação catalã manteve-se praticamente imóvel. Assunto crucial para os cidadãos espanhóis em que as posições estão extremadas com batalhas campais nas ruas, Pedro Sánchez prometeu força q.b, mostrando-se contra a independência mas favorável a maior autonomia. É certo que há situações que mais vale estar quieto para não se fazer asneira, e também não se pedia a Pedro Sánchez uma solução milagrosa, mas pedia-se algo mais, algo que mostrou não ter particular engenho para fazer.

E por falar em situações em que mais vale estar quieto, Pedro Sánchez tirou um coelho da cartola. Dada a situação difícil em que se encontrava por razão de ser um governo minoritário, do falhanço de um possível acordo com o Podemos após meses de negociação, a dificuldade astronómica que é a situação da Catalunha e com a necessidade de uma maioria convincente para governar, no alto da sua capacidade política, decidiu abrir uma ferida sobre outro assunto que divide os espanhóis.  Num rasgo de brilhantismo, Pedro Sánchez manda exumar o corpo de Franco do Vale dos Caídos com o argumento que era para “corrigir uma anomalia democrática que já devia ter sido corrigida”. 

Toda a possibilidade, ainda que hipotética, que Pedro Sánchez poderia ter de uma maioria desapareceu naquele momento. Quando Espanha precisava de soluções objetivas e os cidadãos de respostas para evitar mais desunião, o Presidente do Governo espanhol decide abrir mais uma ferida apenas para, acredito eu, agradar a uma fação mais de esquerda do eleitorado - o que podia até resultar se não existisse a pequena nuance de a esquerda política espanhola estar sobrelotada.

A situação do corpo de Franco não merece, em si e da minha parte, grande comentário. Não estou, nem quero estar, numa posição de analisar essa ação em particular. O que não posso deixar de analisar é que, politicamente, foi uma tremenda parvoíce. Esta ação sobre os restos mortais de Franco em conjunto com a inação geral - mais em específico, na situação catalã - mais o facto de as pessoas estarem saturadas com a conversa sobre eleições, levou a que Pedro Sánchez acabasse por ser um dos principais responsáveis pela subida de um partido como o VOX que aproveitou políticamente essa inação do governo.

Não quero nem serei injusto em dizer que foi o único culpado, até porque seria mentira. Existem outras razões e outros culpados para o aumento da votação do VOX. Contudo, Pedro Sánchez, todo o PSOE e a própria equipa governativa são, em grande medida culpados por esse aumento. O PSOE e a sua equipa governativa porque, enquanto instituições solidificadas, não souberam aconselhar o seu líder e dar-lhe as bases para propostas mais concretas que realmente ajudassem as pessoas, preocupando-se mais com aparências que soluções. O próprio Pedro Sánchez por não perceber a necessidade de estabilidade e acabar por entrar em rivalidades que em nada o ajudaram, mesmo que a intenção possa ter sido boa.

Em suma, Pedro Sánchez não foi capaz de perceber aquilo que as pessoas pediram – afirmação e propostas concretas para os assuntos que já as preocupavam. Em contrapartida, Pedro Sánchez não soube escolher as suas batalhas e, na sua ambição de querer fazer algo (que é para isso que lá está), apostou no cavalo errado abrindo mais uma ferida, o que, naturalmente, se refletiu nos resultados eleitorais. O falhanço de Pedro Sánchez trouxe o resultado esperado, mas que ninguém desejava – mais instabilidade.

 

Pedro

Sentimentalismos à parte, identitarismos: a ascensão dos partidos e o declínio de ideias no Chega e Livre

prolibertate, 17.11.19

A génese

Atualmente, o termo “identity politics” é uma realidade no discurso público. Não apenas na sua componente Gingrichiana, mas também na sua representação cultural, mediática e literária.

Em boa verdade, é quase impossível encontrar um partido apolítico, no sentido em que não haja da seguinte maneira ao encontrar uma temática sócio-económica: identifica o problema, posiciona-se internamente, verifica se essa postura não choca com a narrativa externa do partido, e no caso de chocar, altera-a para o seu inverso, prontamente justificando-a exaustivamente, de forma quase vertiginosa.

Contudo, na última campanha eleitoral e no curto inicio da maratona dos quatro anos que se seguem, dois partidos estão a anos-luz de distância de todos os outros nesta problemática, tendo a primeira prova disso ter sido a sua eleição. Mas lá iremos. O Livre de Joacine e o Chega não são como duas faces da mesma moeda, mas o parceiro da sueca um do outro, que entendem como mudar o jogo, quando recuar e deixar o outro jogar, e principalmente qual deve usar a victim card, e em que momento.

 

Corrida ao hemiciclo

Adversariamente, o Chega e o Livre de Joacine tiveram duas campanhas muito díspares, sendo a do partido de André Ventura focada no terreno, junto do seu eleitorado chave, juntamente com o Facebook (só aqui bastante representativo da sua massa eleitoral), e a do Livre mais focada no Twitter, e em pequenos encontros com os seus consolidados apoiantes e simpatizantes.

Em termos das situações mais relevantes da campanha, podemos salientar a ida de André Ventura ao Polígrafo, onde num dos seus rants populistas, exacerbou um caso de violação e outro de violência doméstica como perfeitos exemplos da totalidade da população criminal, e como justificação para medidas completamente anti-democráticas que defende, como a castração química involuntária, e a prisão perpétua.

Um dos maiores exemplos que me consigo lembrar do discurso simplório e repetitivo do agora deputado, é que nesse mesmo dia, pelo início da tarde, foi convidado pelo núcleo de estudantes de Gestão da Faculdade de Economia de Coimbra a discursar numa palestra intitulada “Abstenção, és tu?”, onde repetiu esses mesmos exemplos e me presenteou com o momento mais cómico destas eleições.

No seu discurso tanto infactual como apaixonado, reiterou de punho no ar que os jovens se abstinham porque o povo português prefere ver se ganhou o Sporting ou o Benfica. Um auditório de estudantes da universidade riu-se, e disse-lhe com um riso de chacota a piada que é gozar com um povo fanático com futebol, quando o senhor deputado ganha todo um ordenado a dar opiniões futebolísticas num canal  sensacionalista, e que foi assim que se tornou um household name, ao não ter credenciais para discursar seja na palestra, seja na CMTV.

Amargamente, o caso do Livre dá-me mais pesar de comentar. A antiga, parecendo até arcaica, mensagem de Rui Tavares, europeísta, ambientalista e da verdadeira luta de desigualdade social, pobreza, perdeu-se. Não se perdeu só, foi completamente posta de parte na campanha, propositadamente, porque infelizmente não vende tão bem como a atual. O Livre de Joacine, o partido da interseccionalidade, da feminista radical, da vitimização, é o triste estado de uma esquerda que outrora fora considerada capaz, conciliatória, e ideológica.

 

A mensagem

Do não só plagiado, como curtíssimo manifesto eleitoral do partido de André  Ventura, retira-se que este pretende fundir as forças policiais numa só Polícia Nacional, revogar a Lei de Género e Igualdade, instalar a prisão perpétua em Portugal, reduzir o número de deputados para o mínimo legal e muitas outras medidas deliciosamente extremistas e populistas.

Já no caso de Joacine e do Livre, alguns dos seus planos controversos são a alteração à Lei da Nacionalidade, onde, segundo a sua proposta, qualquer pessoa que nasça em solo português se tornaria automaticamente cidadão do nosso país, uma ainda maior redução do horário de trabalho, e aumento do salário mínimo nacional para os 900 euros, até 2023.

Nestes dois últimos parágrafos é evidente não só o posicionamento de dois extremos do espectro, mas um retrato de dois tipos de populismo: o de direita e o de esquerda.

 

A decadência de ideias manifesta-se

Os primeiros dias no hemiciclo para estes dois pequenos partidos foram representativos do seu identitarismo, e do desespero do povo português, que com o seu complexo de desconfiança para com qualquer pessoa com experiência política, elege dois deputados que se afirmam nestas últimas semanas como quem não faz a mínima ideia do que significa representar eleitorado: ficar em segundo plano na discussão e trazer para a frente as preocupações dos seus votantes, e não tomar o espaço de discussão pública de assalto com a sua necessidade de estrelato.

Mais uma vez, André Ventura e Joacine Katar-Moreira têm duas estratégias diferentes: o primeiro aproveita todas as oportunidades de atenção que os media e os outros partidos lhe atiram, e não só salta à corda com elas, como sai ainda mais forte destes mal conseguidos ataques.

O CDS exige que Ventura não passe pelos seus deputados ao se sentar no seu lugar, e lá vem um deputado do PEV a sugerir uma nova porta. Como não poderia deixar de ser, o deputado do Chega consolida-se como o bicho papão da direita, e mais uns minutos de telejornal são dedicados a este.

Um comentador político e comediante, que eu respeito imenso, assina uma carta a pedir que o Benfica se distancie das ideias de um dos seus sócios, e André Ventura volta a chorar perseguição.

Surpreendentemente, descobre-se que afinal Ventura não acredita em nenhuma baboseira populista que defende, porque escreveu uma tese em que contradiz o seu manifesto político na íntegra, e este justifica-se dizendo que ciência é uma coisa, opinião é outra. Prontamente, mais uns quantos de programas lambuzam-se com a possibilidade de voltar a pregar pregos no homem que é de aço inoxidável. Estratégia vitoriosa? Sem dúvida.

Inversamente, Joacine pontapeia o estaminé do qual aparentemente não gosta,mas quer fazer parte. No seu primeiro dia chegou ao parlamento com um assessor vestido de saia, do qual ninguém com um cortéx frontal bem formado se oporia, porque era imperativo o partido marcar esse ponto, sendo prontamente agendada uma entrevista num programa de entretenimento das manhãs semanal, onde ficamos a saber tudo acerca do mesmo, e zero sobre como o Livre pretende financiar o seu salário mínimo nacional de 900 euros, ou o seu Green New Deal.

Ainda, tira uma dramática fotografia à frente de uma parede no Salão Nobre da Assembleia, o retrato de uma afro-descendente em frente da representação da escravatura e do colonialismo africano, quando este quadro representa a receção de Vasco da Gama à Índia, por emissários do Samorim de Calecute. Prontamente justifica-se, no Twitter, dizendo que ninguém tem o direito de confrontar uma historiadora com factos.

Também na mesma plataforma, decidiu que o comentador Daniel Oliveira “não tem sido muito diferente de muitos associados à direita e sua extrema” ao achar que a deputada faz política de forma “demasiado pessoal”. Daniel Oliveira, fundador da Plataforma de Esquerda, e tendo sido detentor de funções no Bloco de Esquerda, para além de ser uma figura relevante da esquerda portuguesa desde sempre.

De facto, muitos mais outros exemplos poderia eu dar do tipo de política que estes dois deputados exercem, mas não só demoraria páginas e páginas a analisar tudo, como de certo que brevemente mais outras situações tornarão este texto desatualizado.

 

Um caso de constância

Este texto, e a minha análise, não servem de todo para mostrar que tenho o mesmo desdém pelo identitarismo de Joacine como tenho pelo de André Ventura, não é o caso de todo. Apenas pretendo mostrar que para se ser honesto intelectualmente não podemos condenar uma tática política porque não concordamos com o seu objetivo, e não condenar exatamente a mesma noutro caso, só porque o político que a utilizou tem uma horda de simpatizantes que acha que deve ser imune a críticas, e não vem de uma acentuada posição anti-democrática. Se é desconfortável? Sim. É-o, de facto, mas nem por isso é menos necessário, e nem por isso deve não ser dito.

 

Adriana

O início.

prolibertate, 26.10.19

Olá a todos!

Este primeiro post serve, antes de tudo, para nos apresentarmos e para dizer ao que vimos. A ideia de criar um blog surgiu-nos de uma conversa na nossa rede social predileta, o Twitter, pela necessidade que tínhamos de expor os nossos pensamentos. Nessa conversa percebemos a falta de um espaço onde pudéssemos expor aquilo que pensamos de forma simples, ordenada e livre, o que nos levou a criar este pequeno refúgio onde pudemos partilhar aquilo que consideramos ser mais relevante para nós. Desde notícias, comentários, gostos pessoais ou apenas reflexões, este espaço serve para escrevermos tudo aquilo que noutro sítio se torna impossível de partilhar.

Assim, deixamos uma pequena biografia nossa para que saibam um pouco sobre nós, esperando sempre que nos possam continuar a conhecer por aquilo que aqui escrevemos.

 

  • Luís Miguel, 19. Nascido a norte e em formação no coração académico lusitano. Regido por um ceticismo impenitente. Portanto: tendencialmente à Direita. À esquerda da Direita quando se trata da sua extrema. Por norma, justificadamente, minoritário.

 

  • O meu nome é Filipe Fernandes, tenho 19 anos e sou natural de Matosinhos, Porto. Sou aluno da licenciatura e Presidente do Núcleo de Estudantes de Ciência Política, na Universidade do Minho. Sempre me envolvi, desde cedo, em atividades relacionadas com associativismo estudantil e juvenil, bem como algum sempre fui tendo algum envolvimento político. Foi o amor à arte da política que me levou para a licenciatura em Ciência Política. Tento não me ficar pelas questões mais vagas de cada situação e procuro fazer uma análise justa e coerente, mediante aquilo que sei, bem como os devidos julgamentos, mantendo-me fiel àquilo em que acredito. Críticas quando acho que devo criticar e elogios quando acho que devo elogiar. Assim, tento sempre evitar as trincheiras políticas (que se vão fazendo sentir por toda a parte); de igual modo, tento evitar os "bitaites" vazios e sem substância. Não escreverei sobre aquilo que não tenha conhecimento, visto que nunca senti necessidade de tentar fazer passar uma imagem pseudo-intelectual. Se mudar de ideias relativamente a algo que possa vir a escrever, farei o "mea culpa" e apresentarei os meus novos argumentos. Ah, e também passo demasiado tempo no Twitter.

 

  • Adriana Cardoso, 19 anos. Detentora de opiniões ocasionalmente nada politicamente corretas, maioritariamente tendenciosas e sempre factuais. Tão liberal como a Praça 8 de Maio. A tentar formar-me em Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra. Falando de política enquanto cito Margaret Thatcher, Jordan Peterson, Meghan McCain e Dostoiévski. A única certeza que tenho é que se a Marianne Williamson conseguiu concorrer a presidente dos EUA não há nada que eu não possa fazer (ou pelo menos falhar a tentar).

 

  • Francisca de Figueiredo, 21 anos, sou uma vilacondense perdida na capital, a estudar medicina na Nova Medical School com o objetivo de sair de lá médica em 2022. Para além das artes médicas, também me dedico ao associativismo sendo atualmente vice-presidente da Sociedade de Debates da Universidade Nova de Lisboa e Coordenadora Geral do núcleo de Medicina da mesma. Nas horas vagas das horas vagas leio, escrevo alguns bitaites e troco opiniões principalmente no Twitter. Politicamente insurrecta, comento amadoramente o estado do país.

 

  • João Diogo, 22. Representante da minoria silenciosa de um, o mais provável é encontrarem-me sozinho a defender determinada posição em determinado momento, citando literatura para ver quem está atento. Essencialmente, o representante local e oficioso do Toryismo num país de liberais, reaccionários e sociais-democratas de direita.

 

  • Marco António, 22 anos. Nascido no Porto, registado do outro lado da ponte, bracarense de coração e atualmente morador suburbano de lesbôa. Além disso, orgulhosamente ibérico e europeu. Licenciado em Ciência Política pela melhor academia do país: Universidade do Minho, claro está. Mestrando atribulado no ISEG em Economia Internacional e Estudos Europeus. Com um especial interesse pela política espanhola, tenho o tímido desejo de vir a ser um 'pepero', talvez a versão masculina da Levy.

 

  • Pedro Almeida, com 24 anos e aveirense. Formei-me em Estudos Europeus na mui antiga cidade dos estudantes e, atualmente, tento ser mestre em  Ciência Política. Envolvido na política desde muito novo, descobri-me algo desconfiado para a praticar. Defensor da liberdade com uma costela de ceticismo à mistura. Crente na prudência e na moderação.  Tal como todos aqui, encontro-me pelo Twitter demasiadas vezes.

 

  • Mais Guilherme que Rui, RG por conveniência. 24 anos e um arcuense algures fora dos Arcos. De forma assídua, olho para a coisa pública farto de ?'s e !'s. Por isso: política nacional quanto baste, só, que depois tenho de me curar com a internacional.


    Sejam bem-vindos!