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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Vitória de Marcelo: o que pode ser e o que pode significar

25.01.21

Para começar, compreende-se que as eleições Presidenciais ganham contornos diferenciados de todas as outras eleições. Se é certo que, em eleições Autárquicas e Europeias se conseguem transpor algumas possíveis consequências dos resultados para se antever umas futuras Legislativas (e, mesmo nas Autárquicas, cautela nisso), não é tão certo que o mesmo possa acontecer em eleições Presidenciais. Por uma razão simples: 1- os partidos comportam-se de maneira algo diferente; 2- o candidato precisa de se comportar de maneira diferente; 3- em relação a estas eleições em específico, Marcelo Rebelo de Sousa forçava todas as eventuais diferenças que apontei anteriormente. Assim, poderemos discutir a forma como os partidos políticos se comportaram. Há algumas sérias críticas a fazer - desde aqueles que não souberam aproveitar a oportunidade de ouro que tiveram (PSD), aos que não conseguiram demonstrar qualquer prova de vida (CDS), e até mesmo aos que saíram algo embaraçados (BE e PCP). Da mesma forma, há bons elogios – como aqueles que conseguiram passar a sua mensagem, mantendo uma lógica de refresco nos atores políticos que vão impulsionando (IL). Por fim, fica o Chega, que requer uma discussão muito mais aprofundada (para a qual as redes sociais, definitivamente, não servem), mas que não é o objetivo deste texto.

               Assim, fazendo já aqui o meu disclaimer, o meu voto foi para Marcelo Rebelo de Sousa. Por duas razões: 1- foi do meu entendimento que havia uma enorme falta de qualidade entre os restantes candidatos; 2- considerei que Marcelo, dentro das circunstâncias do momento, tinha condições para fazer um segundo mandato bem mais aproximado das minhas expectativas que, enquanto eleitor de Direita, tinha e tenho. E se houve momentos em que o seu primeiro mandato me desencantou, serei justo e assumo que vejo o seu segundo mandato com olhos de esperança. Passando, então, precisamente para este ponto: o que pode ser e o que pode significar o segundo mandato de Marcelo?

               O que pode ser e o que pode significar unem-se em torno do aproveitamento que a Direita pode fazer disso mesmo. Isto porque: será de universal consideração que Marcelo sai reforçado. Os poderes presidenciais são os mesmos, é certo, mas as circunstâncias mudam: 1- Marcelo vê a sua legitimidade direta e popular a obter resultados históricos, visto que foi o candidato mais votado em todos os concelhos do país. Do mesmo modo, um fator importante é tudo isto acontecer quando Marcelo afirmou, assertivamente, durante os debates televisivos, ser de Direita; 2- o partido do Governo, o PS, não foi capaz de, ativamente, promover esta sua candidatura, sob pena de alargar uma fragmentação interna, dada a candidatura de Ana Gomes e os nomes de algum relevo que esta ainda conseguiu aproximar da sua candidatura; 3- como ponto de extrema importância, o segundo mandato de Marcelo é o último mandato de Marcelo. O próprio Presidente já disse que mesmo mudando as circunstâncias, “a pessoa não muda”. Prestando atenção, novamente, aos debates televisivos de Marcelo, percebemos as vezes que Marcelo se tentou descolar da ação governativa deste Governo. Este pode ser um indício do seu comportamento para o segundo mandato a iniciar. Ou não. Independentemente disso, a Direita só pode ter a ganhar com a reeleição de Marcelo. Aqui, entra a dinâmica daquilo que esta pode significar. É certo que Marcelo defendeu a importância deste Governo chegar até ao final da sua legislatura. E ainda que se possa considerar sobre com que condições permanecerá este Governo em poder – e concordo que este Governo não tinha condições para continuar, dada a quantidade de casos e mais casos que andam à sua volta, mas sabemos da impunidade do PS nestas matérias – a Direita não teria nada em ganhar caso fossem convocadas eleições antecipadas. Neste momento, todas as sondagens indicam para resultados fracos dos partidos de Direita (com exceção dos partidos recentes que têm vindo a crescer) e até um possível fortalecimento do partido do Governo – uma dica: não são “gritos” contra quem trabalha as sondagens que vai fazer melhorar a situação. Desta forma, segurar o atual Governo até ao fim da legislatura é: 1- de facto, impedir uma possível crise política, fora do tempo determinado das eleições, ainda para mais, com o combate à pandemia; 2- numa perspetiva claramente oportunista (mas desengane-se quem pensa que a política funciona de outra forma), segurar o Governo até 2023 significa que, inevitavelmente, é este Governo que vai ter de lidar com as consequências económicas e sociais causadas pela pandemia. Até então, será esperado que toda a população esteja vacinada, logo, o foco político terá de ser a recuperação do país. E quando já circulam notícias que referem que a almofada financeira do Estado português se encontra nos mesmos níveis que no tempo da Troika… então, sabemos que, em frente, teremos um enorme desafio. Tudo isto poderá ter consequências no próprio mandato de Marcelo, que não se deverá querer associar a medidas políticas que possam agravar o estado atual e futuro da situação. Se assim for, a Direita terá em mãos uma nova oportunidade de ganhar a vida que lhe tem faltado – idealmente, tal resultará na possibilidade de se desenvolver uma estratégia sólida e credível, que também tem faltado. Ainda que as circunstâncias nacionais venham a ser absolutamente terríveis, sabemos que estes ciclos podem ser acompanhados de tempos de mudança política.

               Concluo, portanto: a vitória de Marcelo pode significar numa oportunidade para a reorganização tão esperada da Direita. Não é a solução para todos os males, no entanto. E continuará longe de o ser. Não obstante, é, sem dúvida, a solução que mais pode agradar à Direita. Mas em vez de se esperar por um herói que ainda não veio, talvez se possa, paulatinamente, começar a aproveitar aquilo que se tem.

 

 

Filipe S. Fernandes

O voto silencioso

09.01.21

Chega a casa exausto depois de um dia de trabalho, nunca sossegado com a possiblidade de ficar  desempregado devido à crise económica promovida pela pandemia. Durante o caminho para casa tinha recebido uma chamada da mãe idosa, que não viu no Natal e vivia longe do centro da cidade a pedir boleia, alegando não ter transporte do hospital para ir à "consulta do coração", adiada infinitamente pois primeiro não havia consultas mais cedo, depois não era seguro ir ao hospital e continuava a não haver consultas. Aborrecido com o dia, senta-se com a filha a fazer os trabalhos de casa, nota que ultimamente o aproveitamento escolar da pequena tem vindo a piorar. Há uns tempos, a professora, muito bem cotada pelos seus 40 anos de carreira, “meteu baixa” meses antes de ter idade para se reformar e a turma após um mês sem docente recebeu um substituto, que entrou na faculdade sem saber matemática e mal se formou, na sua inexperiência de inicio de carreira, teve de lidar com uma turma de 30 crianças, prejudicadas pelo ensino à distância e pela distância social, cada vez maior em todos os dominios da palavra.

 

Ao jantar, a esposa relembrava que tinham de comprar um forno novo, era mais uma despesa para ser liquidada em prestações, ao menos ainda sobrava dinheiro do seu salário liquido para pagar as despesas fixas mensais, mas não para mais. A televisão ligada como barulho de fundo contava mais uma história de um pedófilo a quem tinha sido aplicada uma pena desproporcional ao crime, olhou para a sua filha e o coração ficou pequenino, desejou que todos os seres desumanos fossem eternamente presos para salvaguardar a vida de quem mais amava. A encerrar o telejornal, era anunciada pena suspensa, mais uma, para alguém que jogou com as amizades e influências certas e abusou do poder, roubando milhares de euros aos contribuintes, a impotência fervilhou e desligou a televisão.

 

No dia seguinte acordou cedo, deixou a filha na escola, não sem antes verificar que a criança não deixava a manta e as luvas no carro, e foi trabalhar. No fim da reunião daquela manhã, em que metade dos funcionários estavam presentes virtualmente, o assunto foi um dos debates presidenciais da noite anterior. A discussão que se iniciou com um “vocês viram aquele mal-educado ontem?” decorreu com os ânimos e a profundidade dignos de um jogo de futebol, nesta troca de opiniões uns exclamavam “ele não quer saber da justiça social, é um terrorista para a humanidade”,  ao que outros, num tom cauteloso, respondiam “eu compreendo, mas ele diz algumas verdades” que por sua vez, eram completados por desejos como “gostava que houvesse um candidato de direita como ele, mas à séria”  que eram respondidos com gritos como “ai não sabia que eras fascista...” rebatidos com “...ao menos não sou comunista”. A opinião popular parecia indicar um vencedor dos debates diferente da dos especialistas.

 

No seu canto permaneceu calado, tinha se habituado a não comentar politica, sempre que se assumia à direita uma onda de insultos, acusações de fascismo e saudosismo de Salazar engoliam qualquer argumento económico e social que tivesse para dar, era mais um derrotado pela espiral do silêncio, mais um indiretamente censurado por quem se diz democrático. Foi então ver a gravação do debate discutido, ficou supreendido porque para ele assitir alguém a assumir-se tão abertamente de direita era libertador. No café do fundo da rua, um outro português sentia a mesma a mesma libertação em ouvir alguém falar da possibilidade de impor restrições à liberdade reprodutiva de cada um, as cortinas da moralidade e ética que o saber estar em sociedade tinha criado, estavam a ser rasgadas. A mensagem era passada de forma ambígua, para que em todos os nichos da sociedade encontrasse um receptor. O rancor e o sentimento de injustiça, diminuíram a capacidade de ouvir o contraditório, o cansaço e o desânimo ocultaram as respostas das alternativas e mesmo os sinais de perigo, como a vontade de um regime presidencialista, tão vulnerável para aspirantes a ditadores, ou promessas de reformas civilizacionais, que desrespeitam a liberdade de ser, passam despercebidos perante tantas menções às preocupações e discordâncias diárias. Pensar num país como um todo e prever consequências não está ao alcance do conhecimento geral e a impaciência descontente, mais que legitima, exige reconhecimento dos problemas e resoluções rápidas para os mesmos.

 

No fim, uma ideia persistia na cabeça deste eleitor: tinha sido sempre um português de bem. Respeitava a lei, estudou e licenciou-se, pagava a sua casa e as suas contas com o ordenado que ganhava pelo seu trabalho, contribuía para o estado social.  Mesmo assim, fazendo tudo o que lhe competia, sentia que o estado falhava à nação, a direita não se impunha economicamente e perdia as causas sem ideologia para a esquerda, o centro estava confuso, parecia não existir espaço para moderados e tudo parecia ser feito e falado de políticos para políticos, não encontrava na equação o povo, numa opinião liderada por intelectuais.

 

O eleitor silencioso não fez comentários no Facebook, não foi para os cafés brindar palavras, não entrou em discussões com a família e amigos... Mas no boletim de voto sussurrou um chega.

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Francisca de Figueiredo

Breve reflexão sobre Belém - Parte II

29.12.20

No passado mês de março, debrucei-me sobre as eleições presidenciais de 2021. Ainda que estivesse a vários meses do momento eleitoral, compreendi que alguns cenários (para tempo ainda de campanha) se estavam a afigurar. À data, André Ventura era o único cidadão que havia oficializado a sua candidatura presidencial, mesmo que os rumores de uma “chegada à frente” de Ana Gomes se começassem a espalhar, assim como o cenário que me pareceu sempre inevitável, em torno de uma recandidatura do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. O objetivo deste texto passa por dar continuidade a esse mesmo texto de março, “Breve Reflexão sobre Belém”, analisando o cenário atual, em sequência daquele que antevi.

Então, volvidos 9 meses, chegamos a dezembro e estes confirmaram-se mesmo como os principais candidatos a Belém: Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Gomes e André Ventura. Juntamente a estes, apresentam-se Marisa Matias, João Ferreira, Tiago Mayan e Vitorino Silva. Assim, analisarei primeiro as candidaturas de Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Gomes e André Ventura.

O atual Presidente da República foi bastante demorado na apresentação da sua recandidatura. A braços com o Estado em “modo de combate” à pandemia do COVID-19, Marcelo Rebelo de Sousa quebrou o impasse no início deste mês de dezembro, anunciando a sua recandidatura. Com o atual panorama nacional, a sua candidatura tem sido bastante calma (até quase ausente). Esta recandidatura foi vista com bastante naturalidade, e a sua vitória também se avizinha, com percentagens, possivelmente, na casa dos 60%, dada a mobilização em seu apoio por parte do eleitorado do PSD, PS e ainda CDS-PP (ainda que nenhum partido vá conseguir mobilizar-se como um todo para qualquer candidatura). Numa campanha extremamente atípica, Marcelo ganha ao não participar muito ativamente enquanto candidato, permanecendo apenas no papel de Chefe de Estado, ao passo que os órgãos de comunicação social atribuem, como seria de esperar, enorme atenção ao Covid, ainda para mais, com o início do período de vacinação já em curso. Isto permitirá a Marcelo manter a sua imagem num novo período de esperança. Além do mais, também beneficia com o facto dos restantes principais candidatos (principais, mas ainda que bastante afastados nas sondagens), nomeadamente, Ana Gomes e André Ventura, serem indivíduos controversos e sem capacidade de unificar. Estes tentam ganhar tempo de antena para as suas campanhas, mas as suas declarações e os seus posicionamentos tendem a não os fazer capitalizar sobre qualquer ausência de Marcelo – nas eleições presidenciais, a moderação do candidato (ainda) assume uma importância elevada.

Quanto a André Ventura, penso que o seu resultado eleitoral poderá não refletir com exatidão algum futuro resultado eleitoral do Chega!, em termos de eleições legislativas. Isto por uma razão simples: sendo óbvio que Ventura conseguirá obter um resultado bastante superior àquele que o Chega! obteve nas eleições legislativas de 2019, e sendo igualmente óbvio que este partido tem uma total personalização da figura do seu líder, não deixa de ser verdade que, em comparação, a Direita poderá estar mais “despida” nas eleições presidenciais do que nas eleições legislativas.  Ao não se verificar uma outra alternativa forte  à Direita de Marcelo, André Ventura poderia ter um trunfo, assente numa sua eventual moderação (pelo menos, seria o momento eleitoral ideal para tal), de forma a capitalizar sobre o possível descontentamento por parte de algum desse eleitorado, perante o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa. No entanto, ofuscado também pela pandemia, Ventura não conseguiu conquistar todo o espaço mediático que conseguiria obter, e tal também terá algumas repercussões, dada a ainda grande importância do foco televisivo.

A candidatura de Ana Gomes surgiu de forma controversa, e assim tem seguido. Mesmo não conseguindo mobilizar apoio da maior parte da ala moderada do Partido Socialista, nem tampouco da maior parte dos seus militantes, Ana Gomes decidiu avançar. Havia recuperado muito protagonismo com o seu comentário político televisivo (e Marcelo marcou aqui uma tendência que parece já se começar a afigurar até para as eleições de 2026), do qual não abdicou – o que, francamente, lhe confere uma vantagem desleal para com os outros candidatos, enquanto coloca em causa toda a razão ser de um bom espaço de comentário político. De outra forma, à semelhança de Ventura, acabaria por ter menos “palco” que aquele que esperaria. Ana Gomes não conseguiu surgir como uma figura capaz de promover maior união na Esquerda - quer pela habitual fragmentação da mesma nas eleições presidenciais, quer pelo interesse que parte da sua própria família política também terá na eventual reeleição de Marcelo. Em cima disto, Ana Gomes decidiu fazer de Ventura o seu principal visado, o que fez com que as suas possibilidades de vitória fossem ainda menores. Isto representa uma má estratégia eleitoral, visto que seria plausível considerar que Ana Gomes e Ventura disputariam algum eleitorado que, possivelmente ideologicamente indefinido, poderia ser movido por insatisfação com Marcelo. Se é certo que, assim sendo, faria todo o sentido atacar Ventura, tal já não se justifica quando toma as proporções que Ana Gomes decidiu dar. Deixa de ser plausível conquistar votos dos “desencantados” com Marcelo, se Marcelo não for o seu principal visado. Além disso, a política é feita através da definição de patamares. Quanto menor e menos ambicioso for o patamar escolhido para combater politicamente, menor poderá também ser o destaque dado, mesmo a alguém com lugar assegurado nas televisões nacionais. Além disso, os próprios ataques de Ana Gomes são, francamente, infelizes, permitindo um maior ataque à própria candidata do que àqueles que ela tenta atacar. Ana Gomes decidiu fazer de um dos seus pontos de campanha algo que não é da competência do Presidente da República e, inclusive, representa um atropelo ao princípio da separação de poderes. Não é estrategicamente inteligente avançar com soundbites sobre propor a ilegalização do Chega, quando o seu principal adversário, que deveria ser Marcelo, permite uma disputa de votos entre Gomes e Ventura. Isto porque: é plausível que Ana Gomes competisse por algum eleitorado contra Ventura, dado o seu foco ao tema da corrupção, comummente realizado também por André Ventura. Ao colocar uma posição tão vincada - e que, repito, se sobrepõe a uma prática democrática importante – sobre um tema que não era essencial para esta campanha, Ana Gomes acaba por alienar a parte do eleitorado que deveria chamar a si.

Algo que não antevi no texto que serve como ponto inicial para este, é relativo aos restantes candidatos que se viriam a oficializar. Assim, incluirei uma breve reflexão sobre estes:

Incluirei Marisa Matias e João Ferreira no mesmo espaço, de forma a fazer considerações finais que se adequam aos dois. Marisa Matias assume-se já como uma quase crónica candidata a Belém, mas que aparenta apresentar algumas dificuldades em definir-se ideologicamente, como se tal estivesse sequer em cima da mesa, o que, provavelmente, mais demonstrará falta de estratégia eleitoral, do que propriamente alguma verdadeira ambiguidade ideológica sua. Esta candidatura peca por isso mesmo, visto que parte do seu possível eleitorado acaba por poder ser aliciado por Ana Gomes, deixando Marisa Matias sem grande espaço de manobra; por sua vez, João Ferreira representa uma melhoria em termos de seleção de candidatos do PCP, face à escolha de 2016. Ainda assim, João Ferreira não pode ser visto como um bom candidato, dado o seu pouquíssimo protagonismo em termos de política nacional. A sua inexperiência, aos olhos da Opinião Pública, não representa qualquer tipo de “vantagem” para o cargo de Chefe de Estado – a título de curiosidade, no texto a que me refiro desde o início, abordei, precisamente, alguma possibilidade de movimentação por parte do PCP, lançando o nome de Jerónimo de Sousa, numa espécie de “última batalha”, assumindo que o secretário-geral comunista deixaria o seu posto partidário em 2021. Tal não aconteceu, como nos relembramos do último congresso do PCP; Por fim, a nota final em torno de Marisa Matias e João Ferreira: ambos são eurodeputados desde 2009, significando que estão afastados dos palcos nacionais há mais de uma década. Ora, sabendo que, muitas vezes, os lugares candidatos ao Parlamento Europeu são vistos como um “mal menor” (dada a natureza das eleições europeias serem de segunda ordem), não me parece sequer justificável que seja daqui que surjam as escolhas para candidaturas presidenciais.

Pela primeira vez, teremos um candidato presidencial apoiado pela IL. Parece-me uma boa estratégia (em termos do seu projeto) dar a conhecer novos e variados atores políticos que defendam a mensagem deste partido, que ainda está em fase de desenvolvimento e maturação. Desta forma, mesmo que até pudesse não corresponder à realidade, a perceção geral será de um projeto em constante crescimento, dada a continuidade de caras novas a serem apresentadas nos diferentes momentos eleitorais. Tiago Mayan foi, assim, a escolha. No entanto, dar a conhecer um indivíduo quase que a partir da “estaca zero” pode ser trabalho árduo e pouco frutífero (salvo algum fenómeno inexplicável que possa acontecer). Além do mais, ainda que o rótulo de “não-político” possa ser tentador, nestes tempos que correm, a falta de experiência política também não representa, por si mesma, qualquer tipo de vantagem.

Por fim, em relação aos candidatos presidenciais, deixarei uma breve nota sobre a candidatura de Vitorino Silva: mesmo podendo ser uma candidatura de difícil reconhecimento (seja nos parâmetros que cada um quiser utilizar), a verdade é que, excluir este candidato dos debates televisivos seria/será um tiro nos pés, por parte dos órgãos de comunicação social. Certo que estes também fazem o seu trabalho de forma a conjugar aquilo que seja do interesse público, aquilo que eles compreendam ser mais “noticiável” e com aquilo que seja mais proveitoso para o seu modelo de negócio. Não vejo mal nisso. No entanto, penso que, se o objetivo for fazer um trabalho realmente prestável e sério em termos jornalísticos, não se deve escolher quem entra ou não nos debates. Os candidatos devem conseguir ter oportunidade de se dirigirem aos eleitores. E estes que retirem as suas ilações e que atribuam mais atenção aos que assim entenderem. A partir daí, nada a apontar.

Concluo este texto, referindo que, pessoalmente, estas eleições presidenciais não têm sido, minimamente, entusiasmantes. Certo que a realidade relacionada com o Covid ofusca aquilo que poderia ser o destaque a estas eleições – francamente, com este leque de candidatos, também não me parece, minimamente, que mais atenção mediática fosse resultar em maior qualidade (aí, o defeito está mesmo nos candidatos) - e que ainda teremos vários debates presidenciais ao longo do mês de janeiro. No entanto, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa é inquestionável (salvo outro tipo de fenómeno inexplicável) e, de resto, entre candidatos com alto pendor de populismo e candidatos cuja relevância política é, no mínimo, questionável, fica o desalento.

 

Filipe S. Fernandes

Contradições e silêncios à esquerda

30.11.20

Esta última semana terá sido especialmente difícil para muitos internautas de esquerda que, aproveitando o confinamento, se recolheram e silenciaram mais do que o necessário, contrariando a habitual e engenhosa agitação das redes sociais em que são especialistas. Vários episódios aconteceram nestes dias que, fossem outros os protagonistas, teriam originado rios de críticas, partilhas e vexames (muitas vezes cheiíssimos de razão).

1 – Terá sido certamente perturbante para essa militância cibernética ver a rápida necessidade sentida pelo Partido Socialista de um apoio tão intragável como o da direita radical e populista para um tema de alto calibre como o de mais uma transferência para o Novo Banco. Não foi uma negociação ou conversa às escondidas, nem sequer foi preciso um papel (ideias desventuradas da direita nos Açores); o diálogo com aquele deputado fez-se a centímetros de distância, em pleno parlamento, com as câmaras de televisão em direto a relatar-nos a reunião. Não quero aqui entrar no debate sobre a legitimidade de falar com certos deputados ou partidos, tendo essa responsabilidade como governante ou não. O que aponto é a contradição entre o que se diz e o que se faz. Como justificam esta negociação, esta conversa, os que convictamente afirmaram “nunca negociar nada” com aquele partido? “Nunca” e “nada” são palavras demasiado fortes e taxativas na vida em geral, mas em política ganham outra dimensão.

2 – A esquerda viral que efusivamente defendia a decisão benévola e salvadora de sustentar a TAP silencia-se ou contradiz-se agora sobre os cortes salariais, a redução de rotas e a extinção de mais de 1800 postos de trabalho (em plena pandemia!). Onde andam as marionetas políticas que tão bem servem o Twitter quando vemos governantes e dirigentes partidários legitimarem estas opções, quando os próprios, a começar pelo ministro que o disse explicitamente, tinham afirmado que o salvamento da companhia seria precisamente para assegurar esses empregos? A crítica à contradição e ao silêncio vai também além redes sociais: António Pedro Vasconcelos, com o “movimento Não TAP os Olhos”, teve coragem, recursos e palco para apresentar uma queixa-crime contra a “gestão danosa” de Passos Coelho na TAP, mas agora nada diz sobre o que se passa na companhia (notar que APV até exigiu um pedido de desculpas do anterior PM e a sua queixa-crime foi desconsiderada pelo Ministério Público)! Mais do que os olhos TAPados, APV e boa parte da esquerda têm agora também os ouvidos e a boca TAPadas – e não é que os Estados de Emergência estejam a coartar a liberdade de expressão… Mais uma vez, não me refiro ao ato em si, à reestruturação, à dimensão e ao plano para a TAP, mas sim à contradição evidente entre o que antes foi apregoado e justificado e o que agora se quer levar avante.

3 – Falando em avante, espaço agora para as novas escolhas do PCP (novas q.b.). É habitual ver nas redes sociais quem, por ofício aparelhista e por caça aos likes e retweets – ser embaixador das coisas boas é sempre agradável –, critique os partidos de direita e outras instituições pelo facto de várias vezes terem painéis, eventos ou órgãos compostos sem a devida paridade ou sequer representação feminina. A contradição da esquerda aqui, praticada pelo silêncio, é dos que absolutamente nada dizem sobre a pouca representação de mulheres nos órgãos eleitos do PCP. A minha crítica não vai para o PCP, pois este é contra as quotas, numa justificação sinceramente compreensível, logo o partido está a ser coerente. Mas não choca ninguém que, em 2020, apesar de o PCP ter 32% de militantes mulheres, elas só representem 27% do Comité Central e só 12,5% da Comissão Política!? Há mais Joões (4) do que mulheres (3) na Comissão Política do PCP! Como é que isto não merece um comentário dos que sempre denunciam qualquer falha de representatividade noutras situações e no outro espetro político? Até agora, não vi nada de quem esperava ver, seguissem a coerência.

4 – Por último, há um silêncio quase geral e umas declarações ziguezagueantes sobre a posição de Portugal quanto ao mecanismo de defesa do Estado de Direito, rejeitado pela Hungria e Polónia. Não há até agora explicação e esclarecimento suficientes sobre a notícia do Público que dá conta de posturas contraditórias de Portugal dentro e fora de portas, sejam já de há mais tempo ou não. Uma coisa sabemos: em julho, o PM afirmou, depois de uma visita à Hungria para se encontrar com Órban, que a atribuição dos fundos do plano de recuperação económica da UE não deve estar dependente do respeito pelo Estado de Direito. Não discuto aqui se se deve ou não fazer depender uma coisa da outra ou, se por outro lado, é preferível com os mecanismos próprios e em sede própria sancionar a atuação atentatória ao Estado de Direito praticada por Hungria e Polónia (nota: Espanha passa pelos pingos da chuva nesta questão; um país à beira de ter o Conselho Geral do Poder Judicial controlado pelo Governo… de esquerda, o que parece automaticamente valer menos escrutínio e crítica). Dos quatro assuntos, este é aquele que despertou mais a esquerda, mas em muito menor dimensão da que se imaginaria se o governo fosse outro. Os iliberalismos não podem só ser maus quando na foto também está o centro-direita e não se deve deixar de beliscar aqueles que, sendo de esquerda, seriam fortemente criticados se por acaso não o fossem. 

Marco António

Imagem de Joan Cornellà

Art by Joan Cornellà

Mais um fim precoce para o populismo americano.

09.11.20

Trump perdeu as eleições americanas. De forma inequívoca, por mais que ele não admita, tendo entregue a Biden os estados do Midwest de blue-color voters que outrora foram a génese do partido democrata. Os mesmos estados que Bill Clinton ganhou em ’92 e ’96; e que Obama ganhou em 2008, tendo sido perdidos para Trump em 2016.

Mais importante que ter expulsado Donald J. Trump da presidência é garantir que alguém com a mesma mensagem não volta lá a entrar, — nem mesmo ele —, e não há melhor forma de o fazer do que analisar a história americana à procura de pistas.

Contudo, e em primeiro lugar, convém deixar claro que o populismo americano não pode ser amalgamado com um. O mesmo barco que senta contiguamente o Bernie Sanders e o Occupy Wall Street, com o Trump e o Tea Party, é precisamente um que tem uma ala direita e uma ala esquerda, que se alimentam mutuamente, que têm similaridades, mas com ideologias díspares.

Um traço comum a estas duas é o reconhecimento de que o sistema capitalista e de mercados não está a funcionar para todos, com soluções dissemelhantes. O populismo de direita culpa o globalismo, no sentido em que o foco se retirou do nacionalismo e de “America first”, para solucionar os problemas de outros países. O de esquerda culpa também o globalismo, mas num sentido mais abrangente, onde considera que o sistema económico global serve os interesses de corporações e deixa “workers last”.

Outra característica consonante é a de fundir os americanos como um, “The People”, certos de que o eleitorado é monolítico, tem os mesmos problemas e preocupações, e que só esses são votáveis. Se por acaso o governo ou os outros partidos não seguirem a vontade do “povo”, torna-se óbvio que foram corrompidos por elites e interesses, sejam eles quais forem.

O populismo americano tem a sua génese em 1849, com os Know Nothings, o primeiro movimento populista de direita estabelecido. Estes perseguiam católicos e imigrantes, tentando instituir uma maioria cristã e branca, usando a perseguição de minorias como forma de afirmar poder. Eventualmente o partido diluiu-se no esquecimento, e vários dos seus membros saltaram para o partido republicano.

No caso do populismo de esquerda, temos em Huey Long um bom exemplo do quão feio também consegue ser. A sua retórica de “eat the rich”, — ainda hoje em dia replicada por progressistas nos EUA —, fê-lo ser considerado em tempos o novo Robin Hood das classes mais baixas. A sua mensagem tinha como alvo a classe média americana, que num mundo em transformação achava a sua forma de viver ameaçada, e tocou nesse medo profundo na forma retorcida de culpar “banqueiros judeus”, — símbolo antissemita também utilizado por Hitler —, e “burocratas de Washington”. Foi considerado um sério oponente à candidatura de Franklin Delano Roosevelt em 1936, tendo sido morto por um médico, Carl Weiss, num bizarro acontecimento.

É premente denotar que devido à cultura americana extremamente pró-mercados, caindo preferencialmente no primeiro prato da balança Liberdade vs Igualdade, e a uma história ainda não retificada de discriminação sistémica, nomeadamente racial, a probabilidade de um movimento populista de direita sair vitorioso contra um de esquerda é significativamente maior. Basta comparar dois movimentos, o Ocupy Wall Street e o Tea Party, sendo que o primeiro fez um grande alarido ao início, e perdeu força; e o segundo conseguiu eleger republicanos com essa agenda, e inclusivamente formar o Freedom Caucus.

Existe nos Estados Unidos uma ferida económica no seio da classe média. Milhares de empregos no Midwest estão a ser automatizados. Ter uma casa própria, algo que deveria custar em média 2.6 anos de rendimento familiar, chega a custar 10 vezes isso em algumas cidades americanas. Esta é a primeira geração que se espera que viva pior que os seus pais. Enquanto isto, os mercados galopam a toda a força, e é dito que a economia está estrondosa. Até este medo e realidade serem confrontados tanto por Democratas como Republicanos moderados, é esperado que o debate esteja entregue aos extremos, e o Trumpismo não morre, não morrerá, e aliás, só se espera que cresça.

 

 

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no source founded

Todos os orçamentos são infelizes à sua maneira, apenas uns mais que outros.

27.10.20

Escrevo este texto sem saber o que é mais deprimente: constatar que o OE dominar de forma tão magnânima o ciclo noticioso é sintomático do quão pequeninos e pobres somos, e permanecemos; ou ter de escrever sobre as inerências da relação tóxica entre os nossos partidos de esquerda.

O Orçamento entregue na Assembleia não é nada mais que um sonho para qualquer esquerdista. Aumento do salário mínimo nacional, aumento das pensões, subsídio de risco para os profissionais de saúde e um novo apoio social para trabalhadores independentes e desempregados sem cobertura. Mesmo assim, os partidos à esquerda do PS não quiseram nada com este; tendo o BE anunciado votar contra, o PCP e o PEV vão-se abster cobardemente, o PAN anda por lá a fingir que é um partido sério, e as duas deputadas não inscritas decidiram sair do modo off e ficar em stand-by na abstenção.

De facto, têm sido umas semanas de palavras e chavões em vão, em que o PCP cripticamente não anunciou o sentido de voto que toda a gente já conhecia; o PAN fingiu que andou a negociar reivindicações já acordadas no passado e que não foram cumpridas; o PS incorreu em coçar a cabeça porque não queria governar em duodécimos; e o PSD amesquinhou-se, declarando com um pontapé no chão, e depois de retirar uma chupeta de borracha da boca, que só voltaria a negociar depois de um pedido de desculpas.

De planos da direita para o país, estamos conversados, já que o contributo do Dr. Rui Rio para o debate foi anunciar que discordava do aumento do salário mínimo, e bem, embora tenha passando ao largo a falta de apoios às empresas, descida do IVA, e isenções fiscais para as famílias.

O caso mais interessante para análise é o sentido de voto do Bloco de Esquerda. A sua grande dor de cabeça é o Novo Banco. Desde 2017, foram emprestados 6030 milhões pelo Estado ao Fundo de Resolução, com uma taxa de juro igual à da dívida pública portuguesa a cinco anos, — que mesmo contando com o spread de 0,15% — , fica em valores negativos. O Bloco aprovou os Orçamentos de 2017, 2018 e 2019, tendo-se abstido no de 2020, que levou a uma viabilização do mesmo.

É particularmente de rir a justificação do Bloco para o sentido de voto neste Orçamento ser diametralmente oposto ao que já nos habituou. Era absolutamente impossível aprovarem mais um cêntimo dos contribuintes para um banco falido, mas só depois do caso dos imóveis e da pasta Viriato terem sido tornado públicos. Imóveis esses, aproximadamente 5400, que não tinham qualquer hipótese de ser vendidos parte a parte, principalmente por serem compostos por tudo como terrenos agrícolas, casas inabitáveis, e casas ilegais. O BE senta-se confortavelmente na mentira de que só após a venda à Lone Star se registaram imparidades nas ações do Novo Banco. Na verdade, registaram-se praticamente os mesmos valores, não tendo merecido estes 1700 milhões atenção dos nossos paladinos anti-corrupção porque não assentava na narrativa, principalmente quando queriam nacionalizar o banco.

Com isto tudo, vamos ter um Orçamento aprovado. O Bloco de Esquerda não caiu na esparrela de António Costa, pronto para o esvaziar politicamente se votasse a favor, e vive para explicar as incongruências da sua justificação de voto. O PSD livra-se de ter de equacionar um Centrão, o CDS permanece vazio politicamente, e a direita no seu conjunto a deixar o debate dos meninos grandes para a esquerda, focando-se em equacionar geringonças nos Açores e em jornadas parlamentares.

 

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Nuno Fox/Lusa

 

Açores como teste

26.10.20

Na passada noite eleitoral de 25 de outubro, os resultados regionais demonstraram aquilo que já a nível nacional se verificara, nas eleições legislativas de 2019: em Portugal, o sistema partidário assume um caráter pluripartidário, transpondo esta mesma característica de forma cada vez mais acentuada para a representatividade partidárias nas assembleias legislativas. Aquilo a que me proponho fazer é levantar questões em torno do arco de governação, de forma a compreendermos as possíveis alterações àquilo que vínhamos conhecendo, e suas consequências para a formação dos governos.

               Nos Açores, o PS perdeu a maioria absoluta, que vinha sendo “sua” desde 1996. Simultaneamente, ainda que o PSD tenha crescido, a correlação entre a descida de um e a subida do outro é cada vez menos direta e linear. Novos atores têm entrado em jogo, alcançado representação parlamentar (neste caso, o Chega!, a Iniciativa Liberal e o PAN). Perante os resultados verificados, existem algumas possibilidades para o alcance de acordos que permitam a formação de uma maioria governativa, seja mais à Esquerda ou mais à Direita. Assim sendo, tanto o PS como o PSD terão de tentar conjugar interesses de modo a recolher aliados num momento crucial. Do lado do PS, o repetido (a nível nacional) pode ser tentado: de modo a impedir um governo de Direita, conseguir assegurar que os partidos que lhe são mais próximos possam assegurar a viabilidade de um governo minoritário seu, mas desta vez tentando esse acordo com BE e PAN, em vez de BE e PCP. Resta perceber se há condições de entendimento com estes atores, se o BE vai querer subir de tom nas suas reivindicações governativas (o que me parece sempre uma inevitabilidade, mais tarde ou mais cedo), e ainda se o PAN tem interesse em alinhar numa solução destas. Neste último caso, se sim, se se contentará com um papel de apoio ao governo minoritário (ainda que só se tenha conseguido fazer eleger agora) ou se tentará colocar algumas garras políticas mais ambiciosas de fora. As outras duas soluções mais plausíveis estão, a meu ver, no lado da Direita: 1) uma agregação, de facto, da Direita, em que a preocupação primordial passa a relacionar-se com a obtenção da maioria governativa e da agregação de interesses mais gerais ou 2) uma tentativa de agregação mais seletiva, ficando a depender de algumas variáveis. Passo a explicar: a primeira possibilidade é, como é claro, a agregação de todos os partidos que estão mais à Direita nesta hipotética tentativa de projeto comum: PSD, CDS, PPM, Chega e IL. Estes partidos garantiram a obtenção total de 29 mandatos, alcançando uma maioria matemática. No entanto, uma agregação deste nível não se avizinha fácil nem assim tão expectável: a peça bloqueadora ou desbloqueadora, poderá ser o Chega!. As declarações de André Ventura fecharam as portas ao envolvimento deste partido (ainda que saibamos que, na política, muitas vezes, estes tipos de declarações podem caducar no tempo equivalente a um estado de alma). Se o Chega! for retirado da equação de uma hipotética agregação de interesses, fica a questão sobre como este partido se comportará perante a possibilidade de ter de viabilizar um governo de Direita no qual não esteja inserido ou bater o pé aos tais “partidos de sistema” e rejeitar toda e qualquer alternativa, mantendo um caminho isolado no sentido de querer incorporar no Chega a única alternativa, para eles, aceitável; a segunda opção passa por tentar incluir o PAN nesta hipotética agregação, em troca com o Chega!. No entanto, esta opção (mesmo que, inclusive, pudesse fechar portas a mais um ou outro partido) ficaria sempre dependente das abstenções, no mínimo, desses mesmos partidos. Agora, a questão que coloquei face a uma possível aproximação do PAN ao PS e restante Esquerda, também vale para PSD e restante Direita: quando o momento chegar, a quem vai o PAN dar a mão? Não obstante, a resposta a esta questão parece-me ser, sem grande real dúvida, que o PAN tenderá a pender para o lado do PS. Ou seja: nestas duas hipóteses mais plausíveis, a estabilidade não parece vir a ser uma “palavra de ordem”, exigindo enorme capacidade de compromisso entre as partes direta e/ou indiretamente envolvidas. Ainda, penso haver uma restante opção, que consiste numa solução inesperada, envolvendo atores da Esquerda e da Direita, como o CDS, o BE e o PAN, simultaneamente. Ainda que estas situações devam ser sempre olhadas com “desconfiança” (no sentido de serem equacionados todos os possíveis cenários), creio que esta manobra poderia sair muito cara ao CDS, nomeadamente. Por fim, não me tendo esquecido de uma última opção, penso que o estabelecimento de um Bloco Central seria um suicídio gritante por parte do PSD, pelo que me parece absolutamente impensável que tal venha sequer a ser minimamente equacionado.

               Ora, sabemos que, aconteça o que acontecer, há duas ilações (mais e menos óbvias) que podemos retirar: 1) o poder político, nos Açores, está a ser alterado; 2) perante toda e qualquer solução final que se possa encontrar, é verdade que estas devem continuar a ser analisadas pelo prisma regional, podendo não significar algo mais para termos nacionais. Ainda assim, é curioso ver o acompanhamento que estas eleições regionais fizeram perante as últimas eleições legislativas. Do mesmo modo, acabam por lançar o mote para as eleições autárquicas do próximo ano. A meu ver, esta antevisão deve fazer os partidos soarem os seus alarmes, na medida em que devem estar preparados para reagir face a possíveis impasses, originados por fragmentações como esta.

               Uma última nota: já estamos a sentir as consequências do precedente aberto nas eleições legislativas de 2015. De repente, mesmo que o partido vencedor tenha a possibilidade de alcançar uma solução governativa, o ónus de encontrar essa solução já não se apresenta somente em si, por ter sido o vencedor eleitoral. Desta vez, o grupo dos perdedores (em termos objetivos) pode, novamente, virar a mesa.

 

                                                                       Filipe S. Fernandes

 

O Papa Francisco

23.10.20

Desde que foi eleito Papa pelos Cardeais no Conclave em 2013, o Papa Francisco tem sido conotado e adjetivado de “progressista”. Para muitos católicos – e até não católicos -, essa mensagem pegou, principalmente comparando a um Papa - esse sim "católico conservador", dizem – como Bento XVI. Contudo, basta uma pequena reflexão para se perceber que o Papa Francisco é também um conservador.

Para se perceber do que falo, é importante esclarecer dois conceitos, nomeadamente “progressista” e “conservador”. Em termos genéricos, progressista é aquele que professa as ideias do progresso. É aquele que, não só as reconhece, mas como ativamente as promove. Já quando falamos no conservador, há mais dificuldade em definir. Para muitos, e principalmente nos dias que correm, conservador é equivalente – ou quase – a reaccionário. Todavia, e em termos bastante genéricos, considero que “ser conservador” é uma posição pré-política, ou seja, é uma atitude de estar na vida, uma forma de agir e reagir consoante as circunstâncias, ancorada no princípio de racionalidade e moderação, que se traduz no respeito e na atenção pelo que se provou resultar e na evolução daquilo que se provou não resultar.

Posta esta clarificação, no dia 4 de Outubro, foi lançada a Encíclica Fratelli Tutti e, mais uma vez, o esperado aconteceu – muitos foram aqueles que lançaram aos sete ventos que o Papa Francisco é um progressista e só assim a Igreja Católica avançará para o futuro. Contudo, será assim tão progressista? Ou seja, promove assim tanto o avanço da sociedade de acordo com os padrões atuais? Promove reformas estruturais fortes, rompe assim tanto com o status quo em nome do progresso? Se formos analisar as últimas duas grandes posições do Santo Padre friamente, não é isso que parece.

Nesta Encíclica em particular, o Papa Francisco faz uma reflexão sobre o estado do mundo sobre várias perspetivas, alertando que não podemos ficar estagnados enquanto existem avanços no mundo, mantendo sempre uma posição racional, defendendo a moderação e a atenção a avanços desmedidos. Alerta fortemente para os perigos das tecnologias sem ser contra elas. Acautela os desafios que existem com as crises que nos afligem – como a do coronavírus ou refugiados - enquanto faz a defesa do amor pelo próximo – particularmente com a parábola do Samaritano. Estes três exemplos, e há mais que se podem verificar com a leitura deste magnífico documento, não apresentam particular progresso. Existe sim uma reflexão. Um respeito e defesa do que de bom já existe, reconhecendo, ao mesmo tempo, que o mundo não pára e são precisas adaptações. Em suma, o Papa Francisco faz aquilo que outros fizeram antes dele – analisa a situação atual e aplica a doutrina da Igreja, nada mais habitual.

O outro assunto que rompeu de alegria os sectores mais progressistas da sociedade foi o reconhecimento e defesa, por parte de um Papa, da união civil entre casais do mesmo sexo. É fácil de assumir este progressismo do Papa Francisco quando este é um tema quente dentro da Igreja e existem facções dentro da mesma que são absolutamente contra, mas, ainda assim, em linha com o conceito que aqui emprego, não é nada de assim tão progressista quanto se apregoa. Em boa verdade, é uma atitude de um conservador.

A mensagem que o Papa Francisco passou foi uma clara adaptação à realidade. Se analisarmos a situação, o Sumo Pontífice não avançou muito naquilo que já existe. Não teve iniciativa de reformar a Igreja para enquadrar os casais do mesmo sexo. Não defendeu o casamento religioso para eles. Nem sequer tocou no assunto. O que este fez foi uma consideração ponderada. Foi olhar para o que já existe, o que se estabeleceu, o que resulta, e defendeu a sua permanência e protecção. Defendeu, afinal de contas é o líder da Igreja Católica, os valores cristãos, tal como fez na Encíclica supramencionada.

Nesta mensagem, o Santo Padre afirmou que “Eles são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou forçado a ser infeliz por isso”. A isto, acrescentou ainda que “o que temos que criar é uma lei da união civil. Dessa forma, eles estão legalmente cobertos”. Esta posição do Santo Padre não é mais que a adaptação aos tempos que vivemos. Não é mais que uma olhar para a realidade e perceber aquilo que já existe, aquilo que funciona, e tomar uma decisão com base no respeito por isso mesmo. Aquilo que fez foi, com um humanismo transcendental, a defesa do direito à família e ao amor de Deus para todos, tudo valores cristãos.

Esta atitude do Papa Francisco não mostra que ele é “progressista”, não no sentido político que lhe querem atribuir e como muitos querem, forçosamente, mostrar. Esta atitude do Papa é uma atitude pré-política, é uma atitude da maneira de ser, é humanista, moderada e de respeito por tudo aquilo que já conquistámos enquanto sociedade. É olhar para o futuro com os pés assentes na terra, aceitar que o futuro tem coisas boas para nos trazer, mas que é importante também valorizar aquilo que já temos. Em suma, é uma atitude conservadora.

Com isto tudo, há algo ainda mais importante que o potencial progressismo ou conservadorismo do Papa. O Santo Padre é um líder religioso, não político, e, por essa razão, o mais importante é continuar a defender os valores cristãos. Para isso, deve continuar a ser humanista, deve defender a doutrina da Igreja Católica, deve ser ponderado e moderado, e, a cima de tudo, deve garantir que, perante Deus, todos somos iguais e amados por Ele. O Papa, seja ele quem for, não tem que ter a preocupação de mais ou menos progressista, principalmente quando os padrões desse progressismo são desenhados em praça pública.

Aquilo que ele fez foi, antes de qualquer “progressismo” ou até “conservadorismo”, foi ser cristão e, quanto a isso, ninguém o pode condenar, mesmo que se discorde desta posição dele (particularmente aqueles que rotineiramente são chamados de "católicos conservadores"). 

Como o nome da própria Encíclica afirma, o papel do Papa é garantir que somos Todos Irmãos. Nesse aspecto, meus amigos, tenho para mim que o Santo Padre fez um trabalho fenomenal.

 

Nota: É importante clarificar mais uma vez que esta reflexão que aqui faço não tem nada a ver com ação política, mas sim com uma atitude perante a vida. Como deixei claro na definição, é uma defesa do modo de estar dele e contra uma corrente que teima, à força, rotulá-lo de progressista, com conotações políticas e como se qualquer outra posição na vida fosse inaceitável.

 

Pedro

 

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O Conundrum da Direita Portuguesa

02.08.20

Abrindo-se o Observador, ou qualquer colunista de direita, vê-se muito parágrafo e inúmeras linhas escritas sobre a esquerda e os seus males, passando ao lado consecutivamente que às vezes é necessário fazer a própria cama antes de ir criticar o mundo. Vou portanto puxar os lençóis para cima numa tentativa de dormir mais descansada à noite.

 

A razão pela qual o Partido Socialista está com 39% da intenção de voto não se traduz no brilhantismo da atuação do nosso PM, e muito menos na popularidade do seu governo. Tanto a Maria Antonieta socialista, como o ministro da chalaça parlamentar que chama de “fanáticos” a quem discorde do seu trágico manuseamento da pasta da TAP, ao ministro do lítio que agora se transformou na miragem do hidrogénio, não são propriamente populares e considerados eficientes.

 

Assim sendo, pareceria quase intuitivo que os partidos de direita estivessem a desbravar caminho nas sondagens, galopando ofegantes para quase 30%. Contudo, nem combinando a intenção de voto no PSD e no CDS o atingimos.

 

Qual será portanto a razão do desamor do país com o lado direito do espectro? Na verdade é uma questão multifacetada e que incute responsabilidades gerais e específicas aos respetivos partidos.

 

Começando pelos problemas latentes da direita no geral, um dos principais erros é a falta de uma mensagem musculada anti-corrupção. Qual é o sentido de deixar o BE ter o monopólio do discurso quando não pretendem a manutenção e melhoramento do capitalismo como o melhor modelo económico que existe, e que levantou mais pessoas da pobreza, falando, aliás, em acabar com este? Qual é a lógica de deixar o Chega se apropriar deste para a sua bandeirinha populista anti-sistema quando tinham um manifesto copiado de outro partido, altos quadros na lista negra do fisco, e irregularidades no financiamento da campanha das europeias?

 

De facto, na minha opinião, o maior erro da direita democrática é o negar constante do passado colonialista português e as manifestações ainda atuais desse pecado, como aliás se viu com o recente homicídio de Bruno Candé. Entregaram aos agora ex-combatentes armas, disseram-lhes que era “nós contra eles”, terminou-se a guerra e deixou-se estas pessoas sem qualquer acompanhamento psicológico ou sequer com o ónus de desfazer o “nós contra eles”. Um dos resultados foi o homicídio horrífico de um pai de três filhos, português, e com 39 anos. O “nós contra eles” tornou-se o “nós contra nós se tiverem uma tez mais escura”, e não interessa quantas manifestações do movimento 0 se faça, isto existe, e deixar a esquerda pegar num problema e espremê-lo em “Portugal é institucionalmente racista” é um erro que pagamos e iremos pagar consecutivamente, principalmente com as gerações mais jovens.

 

Nos casos dos partidos democráticos de direita, o PSD, o CDS e a IL, combinados não dão a percentagem de votos do PS. O CDS, um dos partidos fundadores da democracia portuguesa, está lentamente a desaparecer, e a passar do novo partido de táxi, para o novo partido de triciclo e podendo mesmo acabar no do monociclo. O conservadorismo popularucho, agro-beto, do status-quo, está a levar lentamente o partido ao oblivium, e a culpa é da nova direção, que seguiu o rumo do bafio, da naftalina, e do conservadorismo do século passado.

 

O PSD, a nossa bela barata tonta, tanto se chega ao Centrão, como à extrema direita. No fundo o Dr. Rui Rio não sabia se queria ser deputado, nem se queria governar, e muito menos quer ser oposição. Queixa-se que a pasta do Novo Banco não foi tratada de forma transparente, e ao mesmo tempo viabiliza o encurtar do tempo de escrutínio parlamentar ao primeiro ministro. Vota consecutivamente ao lado do PS, e depois diz que coliga com o Chega se “este se moderar”. A técnica é óbvia, como não sabe o que anda a fazer, faz um pouco de tudo, tanto o oito como o oitenta, e espera que a média dê mais ou menos para ser reeleito.

 

De seguida, temos a IL. A mensagem do “em Portugal só há liberais ou socialistas”, e do “estão a ver um bolo? Se meterem, tipo, fermento, ele cresce, e resolvemos assim os problemas fundacionais da economia portuguesa” já esgotou as quotas de paciência. Depois da campanha inovadora e caricatural, convinha marcar posições claras sobre, por exemplo, questões sociais, e não deixá-las na ambiguidade para apanhar lapas conservadoras que gostam de mercado livre no casco do navio. Eu sei que dá jeito para fingir uma força liberal em Portugal que pode de facto ser inovadora, mas talvez devessem redirecionar mensagem para captarem a quase totalidade dos liberais, e não ficarem por meias medidas por apregoarem ao cliente errado. Partidos ambíguos caem no desuso e esquecimento.

 

Por fim, e talvez o mais importante, é manter o nível mínimo de ética e integridade. Dir-me-ão, mas se o Chega se moderar, e se for oportuno, não deveria a direita federar-se e tentar tomar de assalto o poder? Não. Não se corre atrás da extrema-direita. Não se compromete com a extrema-direita. A direita democrática não depende da extrema-direita, combate-a, todos os dias. A direita democrática não depende da extrema-direita, porque esta vai e vem, mas a democrática fica, e sempre ficará. Está na hora, portanto, de tirar o microfone da nova moda populista e extremista e trabalhar para merecer o voto de quem dele depende, o eleitorado democrático português.

Adriana F. L Cardoso

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source: pinterest

 

 

 

 

 

 

 

 

Emancipação feminina, mas.

25.07.20

Correndo o risco de erriçar os cabelos dos adolescentes e pubescentes do Twitter, ainda com acne e/ou sem barba, pertencentes às juventudes do Bloco de Esquerda e da Juventude Comunista, porque leram uma vez o Manifesto, e por alto um resumo do Capital, aqui vai: uma reflexão sobre o movimento feminista por uma mulher de direita.

Numa altura em que vivemos uma pandemia mundial, em que foi feita história esta semana no Conselho Europeu, ao assistirmos ao colapso da sociedade americana como a conhecemos, e ao ter sido aprovada uma lei absolutamente autocrática que finda a curta história de “um país, dois sistemas” em Hong Kong, os tópicos mais relevantes permanecem a cancel culture, derrube de estátuas por mobs, mudança de nomes de marcas, e, o mais ridículo de todos, se uma mulher de direita pode ser feminista.

Mas afinal o que é ser feminista? Aqui encontra-se a raiz do problema. Estamos a falar de salário igual para trabalho igual, com todas as nuances de mesmas horas trabalhadas, anos de experiência, produtividade, mandato e mesma posição? Eu diria que é tudo menos um exagero assumir que não só a esmagadora maioria dos homens com um córtex pré-frontal minimamente desenvolvido, como praticamente a totalidade das mulheres concorda com esta afirmação. Tentar fingir que este é o ponto discutível é assumir que as pessoas do outro lado do vosso espectro têm uma dissonância cognitiva grave.

Significa assumir que no ano de 2020 eu defenda de punho do ar numa manifestação na Alameda que por ser mulher estou hierarquicamente abaixo de qualquer homem, que sou vitimizada diariamente em termos de sociedade apenas e só por ter um endométrio, e que faça o que fizer estarei sempre exatamente 0,25 degraus abaixo de um homem no primeiro do lance de escadas? Não, não sou feminista.

Significa colocar posts no Facebook a dizer “yessss girls, girl power” porque milhares de mulheres foram à Women’s March, organizada por uma ativista que chamou ao Farrakhan de “GOAT”, sendo que alguns dos seus maiores hits passam por chamar de cães a homossexuais e de porcos a judeus? Não, não sou feminista.

Significa achar que todas as mulheres, por serem mulheres, têm uma “experiência de vida” que veio em série com o seu útero que faz com que não haja uma única com algo estúpido para dizer? Nem mesmo quando a Emily Ratajkowski colocou um gráfico no Twitter a indicar o Joe Biden como parte da alt-right? Não, não sou feminista.

Significa que tenha como um dos meus maiores exemplos e ícones a Margaret Thatcher, uma mulher que vinda de uma cidade rural e filha de um dono de uma mercearia, ascendeu ao maior cargo político de uma das maiores democracias mundiais numa altura em que nas mesas das grandes reuniões políticas internacionais, e até dentro do seu próprio gabinete, ela fosse a única mulher, e assim estou automaticamente excluída de ser feminista porque a esquerda a considera um monstro? Então não, não sou feminista.

Significa ter como exemplo o movimento sufragista, onde mulheres que eram literalmente um pertence dos seus maridos ou pais, lutaram, algumas com a vida, para que eu possa estar livremente a escrever este texto, possa sonhar ter um cargo político, ter direito a me divorciar, se assim o entender, sem ser marcada como uma meretriz, e votar regularmente e sempre que me é possível? Sim, sou feminista.

 

O pior desta questão nem passa por todas as razões que listei acima. Passa sim pelo argumento basilar do qual muitas feministas partem: todas as disparidades são desigualdades, e qualquer revés que algum membro de um coletivo passe individualmente é causa das características desse mesmo coletivo. Isto não corresponde minimamente à realidade. É óbvio que há pessoas preconceituosas. É até mesmo provável que em algum ponto da minha vida eu sinta que fui descriminada porque sou mulher. Contudo, não cabe na cabeça de ninguém fazer o salto para “o capitalismo é patriarcal e machista, e como vivemos numa sociedade capitalista, a sociedade em si é machista”, ou, “qualquer situação em que um homem seja preterido em relação a mim é por eu ser mulher”.

Voltando à questão inicial e para terminar, sim, uma mulher de direita pode ser o que bem entender. É importante lembrar que no dia a dia, maior parte das pessoas, as que não vivem no Twitter, não perdem horas do dia a decidir se são seja o que for porque alguém fez uma poll a perguntar à sua bolha se dá para haver feministas de direita.

O que aconteceu ao movimento da emancipação intelectual feminina, onde todo o tipo de mulheres, desde as de diferentes etnias, orientação sexual, conservadoras, liberais, de direita, esquerda, se poderiam juntar para defender o mesmo ideal, muitas vezes o único que as unifica, igualdade de género perante a lei? Quando é que entre o sufragismo e a atualidade o movimento se tornou um clube restrito onde só pode entrar quem subscreva à totalidade da ideologia de esquerda?

O feminismo começou como um traço geral e unificador e está se a tornar numa palavra feia pela hiper-visibilidade de uma elite ideológica restrita, que não representa o movimento no geral, e muito menos a generalidade das mulheres.

Dêem-me as vossas AOC, Linda Sarsour e Simone de Beauvoir que eu respondo-vos com as minhas Diana Furchtgott-Roth, Margaret Thatcher e Christina Hoff Sommers.

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