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Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Non dubium pro libertate

"If liberty means anything at all, it means the right to tell people what they do not want to hear." George Orwell

Retórica às direitas.

18.11.20

Enquanto cidadãos, nenhuma entrevista de André Ventura nos pode ser dispensável. Não porque o interesse pelas suas ideias em mim se tenha multiplicado ou porque tema que o futuro esteja ali; não o pode ser porque o líder do Chega é visto como inimputável e hoje as restantes direitas assumiram uma responsabilidade sobre os cacos do que este quer, abertamente, destruir. Podemos viajar às origens de um movimento oportunista e nada original — a política internacional é interessante também por isto —, mas o único ponto aqui relevante nem é de substância, é de retórica.

O líder do Chega falou para os seus, para os eleitores superficiais e para os efetivamente desinteressados (uma vasta maioria, parecendo que não); abusou de frases feitas em casa, exageradamente preparadas, mas as mais fáceis de absorver por quem está a usar a televisão como ruído de fundo. Para contrabalançar, sobra perguntar o que afirmaram (e não “fizeram”!) o PSD e o CDS para quem não se revê, por exemplo, na gestão deste Governo. Apontar erros, incongruências, dizer o que fariam melhor e largar a ladainha do “interesse nacional”. É do interesse nacional que o partido que deveria ser tido como o maior garante de estabilidade à direita consiga assumir uma postura, encontrar uma liderança ou mensagem que satisfaça os seus e saiba comunicar em 2020. Hoje, estes requisitos mínimos para um qualquer partido político europeu levam já três anos de abandono.

Ora, não existe política sem retórica ou artifícios. Não existe. A busca por uma seriedade inabalável na ação do PSD serviu apenas para multiplicar o escrutínio sobre os seus, com os resultados conhecidos. Tropeçamos em tweets que são justificados como meras “brincadeiras” ou “ironias” do líder da oposição e outros tropeçaram na soma tripla de promessas éticas, escrutínio decorrente e históricos individuais. Se somarmos o CDS, é notória a inexistência de um propósito ou estratégia de comunicação. Não sabem o que fazer com o seu espaço mediático e, em dias, parecem abdicar voluntariamente dele. É aí que está o principal combustível do Chega: na retórica. Como se tornou uma lapalissada, gere a atividade parlamentar para vídeos de redes sociais e não para deixar uma particular marca na sociedade; e tomou de assalto as redes sociais porque o tradicional eleitor da direita, não vendo uma linha temporal válida na tradição, se move à sombra da ideia única que a esquerda é “um inimigo”. Em confronto total, a emoção política vencerá sempre a razão. Não comprar a guerra nesses termos é fundamental. Mas outra guerra terá de existir, caso contrário, o caminho é para a vulgarização da direita tradicional. A dicotomia é natural e fundamental à política, um esforço para que essa exista entre PSD e PS e não entre direita e esquerda ou “sistema” e “anti-sistema” é agora a maior missão da direita.

Um dia, alguém escreverá a história de uma direita de “appeasers”. Foram-no para moderar o PS com “acordos de regime” e o PS mostrou conforto. Hoje, não perceberam que o partido de André Ventura é mais perigoso para as ambições da direita tradicional do que o PCP e o BE foram para o PS desde 2015. O problema nunca foram os Açores; é, sim, a demonstração de que os valores da direita têm um preço que se mede em poder. É, numa fase anterior, não serem do conhecimento popular as mensagens do PSD ou do CDS para o país. Não que elas não existam, o que não existe é a retórica e o artifício, que são e continuarão a ser o melhor meio de transporte para qualquer ideia.

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Mais um fim precoce para o populismo americano.

09.11.20

Trump perdeu as eleições americanas. De forma inequívoca, por mais que ele não admita, tendo entregue a Biden os estados do Midwest de blue-color voters que outrora foram a génese do partido democrata. Os mesmos estados que Bill Clinton ganhou em ’92 e ’96; e que Obama ganhou em 2008, tendo sido perdidos para Trump em 2016.

Mais importante que ter expulsado Donald J. Trump da presidência é garantir que alguém com a mesma mensagem não volta lá a entrar, — nem mesmo ele —, e não há melhor forma de o fazer do que analisar a história americana à procura de pistas.

Contudo, e em primeiro lugar, convém deixar claro que o populismo americano não pode ser amalgamado com um. O mesmo barco que senta contiguamente o Bernie Sanders e o Occupy Wall Street, com o Trump e o Tea Party, é precisamente um que tem uma ala direita e uma ala esquerda, que se alimentam mutuamente, que têm similaridades, mas com ideologias díspares.

Um traço comum a estas duas é o reconhecimento de que o sistema capitalista e de mercados não está a funcionar para todos, com soluções dissemelhantes. O populismo de direita culpa o globalismo, no sentido em que o foco se retirou do nacionalismo e de “America first”, para solucionar os problemas de outros países. O de esquerda culpa também o globalismo, mas num sentido mais abrangente, onde considera que o sistema económico global serve os interesses de corporações e deixa “workers last”.

Outra característica consonante é a de fundir os americanos como um, “The People”, certos de que o eleitorado é monolítico, tem os mesmos problemas e preocupações, e que só esses são votáveis. Se por acaso o governo ou os outros partidos não seguirem a vontade do “povo”, torna-se óbvio que foram corrompidos por elites e interesses, sejam eles quais forem.

O populismo americano tem a sua génese em 1849, com os Know Nothings, o primeiro movimento populista de direita estabelecido. Estes perseguiam católicos e imigrantes, tentando instituir uma maioria cristã e branca, usando a perseguição de minorias como forma de afirmar poder. Eventualmente o partido diluiu-se no esquecimento, e vários dos seus membros saltaram para o partido republicano.

No caso do populismo de esquerda, temos em Huey Long um bom exemplo do quão feio também consegue ser. A sua retórica de “eat the rich”, — ainda hoje em dia replicada por progressistas nos EUA —, fê-lo ser considerado em tempos o novo Robin Hood das classes mais baixas. A sua mensagem tinha como alvo a classe média americana, que num mundo em transformação achava a sua forma de viver ameaçada, e tocou nesse medo profundo na forma retorcida de culpar “banqueiros judeus”, — símbolo antissemita também utilizado por Hitler —, e “burocratas de Washington”. Foi considerado um sério oponente à candidatura de Franklin Delano Roosevelt em 1936, tendo sido morto por um médico, Carl Weiss, num bizarro acontecimento.

É premente denotar que devido à cultura americana extremamente pró-mercados, caindo preferencialmente no primeiro prato da balança Liberdade vs Igualdade, e a uma história ainda não retificada de discriminação sistémica, nomeadamente racial, a probabilidade de um movimento populista de direita sair vitorioso contra um de esquerda é significativamente maior. Basta comparar dois movimentos, o Ocupy Wall Street e o Tea Party, sendo que o primeiro fez um grande alarido ao início, e perdeu força; e o segundo conseguiu eleger republicanos com essa agenda, e inclusivamente formar o Freedom Caucus.

Existe nos Estados Unidos uma ferida económica no seio da classe média. Milhares de empregos no Midwest estão a ser automatizados. Ter uma casa própria, algo que deveria custar em média 2.6 anos de rendimento familiar, chega a custar 10 vezes isso em algumas cidades americanas. Esta é a primeira geração que se espera que viva pior que os seus pais. Enquanto isto, os mercados galopam a toda a força, e é dito que a economia está estrondosa. Até este medo e realidade serem confrontados tanto por Democratas como Republicanos moderados, é esperado que o debate esteja entregue aos extremos, e o Trumpismo não morre, não morrerá, e aliás, só se espera que cresça.

 

 

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Todos os orçamentos são infelizes à sua maneira, apenas uns mais que outros.

27.10.20

Escrevo este texto sem saber o que é mais deprimente: constatar que o OE dominar de forma tão magnânima o ciclo noticioso é sintomático do quão pequeninos e pobres somos, e permanecemos; ou ter de escrever sobre as inerências da relação tóxica entre os nossos partidos de esquerda.

O Orçamento entregue na Assembleia não é nada mais que um sonho para qualquer esquerdista. Aumento do salário mínimo nacional, aumento das pensões, subsídio de risco para os profissionais de saúde e um novo apoio social para trabalhadores independentes e desempregados sem cobertura. Mesmo assim, os partidos à esquerda do PS não quiseram nada com este; tendo o BE anunciado votar contra, o PCP e o PEV vão-se abster cobardemente, o PAN anda por lá a fingir que é um partido sério, e as duas deputadas não inscritas decidiram sair do modo off e ficar em stand-by na abstenção.

De facto, têm sido umas semanas de palavras e chavões em vão, em que o PCP cripticamente não anunciou o sentido de voto que toda a gente já conhecia; o PAN fingiu que andou a negociar reivindicações já acordadas no passado e que não foram cumpridas; o PS incorreu em coçar a cabeça porque não queria governar em duodécimos; e o PSD amesquinhou-se, declarando com um pontapé no chão, e depois de retirar uma chupeta de borracha da boca, que só voltaria a negociar depois de um pedido de desculpas.

De planos da direita para o país, estamos conversados, já que o contributo do Dr. Rui Rio para o debate foi anunciar que discordava do aumento do salário mínimo, e bem, embora tenha passando ao largo a falta de apoios às empresas, descida do IVA, e isenções fiscais para as famílias.

O caso mais interessante para análise é o sentido de voto do Bloco de Esquerda. A sua grande dor de cabeça é o Novo Banco. Desde 2017, foram emprestados 6030 milhões pelo Estado ao Fundo de Resolução, com uma taxa de juro igual à da dívida pública portuguesa a cinco anos, — que mesmo contando com o spread de 0,15% — , fica em valores negativos. O Bloco aprovou os Orçamentos de 2017, 2018 e 2019, tendo-se abstido no de 2020, que levou a uma viabilização do mesmo.

É particularmente de rir a justificação do Bloco para o sentido de voto neste Orçamento ser diametralmente oposto ao que já nos habituou. Era absolutamente impossível aprovarem mais um cêntimo dos contribuintes para um banco falido, mas só depois do caso dos imóveis e da pasta Viriato terem sido tornado públicos. Imóveis esses, aproximadamente 5400, que não tinham qualquer hipótese de ser vendidos parte a parte, principalmente por serem compostos por tudo como terrenos agrícolas, casas inabitáveis, e casas ilegais. O BE senta-se confortavelmente na mentira de que só após a venda à Lone Star se registaram imparidades nas ações do Novo Banco. Na verdade, registaram-se praticamente os mesmos valores, não tendo merecido estes 1700 milhões atenção dos nossos paladinos anti-corrupção porque não assentava na narrativa, principalmente quando queriam nacionalizar o banco.

Com isto tudo, vamos ter um Orçamento aprovado. O Bloco de Esquerda não caiu na esparrela de António Costa, pronto para o esvaziar politicamente se votasse a favor, e vive para explicar as incongruências da sua justificação de voto. O PSD livra-se de ter de equacionar um Centrão, o CDS permanece vazio politicamente, e a direita no seu conjunto a deixar o debate dos meninos grandes para a esquerda, focando-se em equacionar geringonças nos Açores e em jornadas parlamentares.

 

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Nuno Fox/Lusa

 

Açores como teste

26.10.20

Na passada noite eleitoral de 25 de outubro, os resultados regionais demonstraram aquilo que já a nível nacional se verificara, nas eleições legislativas de 2019: em Portugal, o sistema partidário assume um caráter pluripartidário, transpondo esta mesma característica de forma cada vez mais acentuada para a representatividade partidárias nas assembleias legislativas. Aquilo a que me proponho fazer é levantar questões em torno do arco de governação, de forma a compreendermos as possíveis alterações àquilo que vínhamos conhecendo, e suas consequências para a formação dos governos.

               Nos Açores, o PS perdeu a maioria absoluta, que vinha sendo “sua” desde 1996. Simultaneamente, ainda que o PSD tenha crescido, a correlação entre a descida de um e a subida do outro é cada vez menos direta e linear. Novos atores têm entrado em jogo, alcançado representação parlamentar (neste caso, o Chega!, a Iniciativa Liberal e o PAN). Perante os resultados verificados, existem algumas possibilidades para o alcance de acordos que permitam a formação de uma maioria governativa, seja mais à Esquerda ou mais à Direita. Assim sendo, tanto o PS como o PSD terão de tentar conjugar interesses de modo a recolher aliados num momento crucial. Do lado do PS, o repetido (a nível nacional) pode ser tentado: de modo a impedir um governo de Direita, conseguir assegurar que os partidos que lhe são mais próximos possam assegurar a viabilidade de um governo minoritário seu, mas desta vez tentando esse acordo com BE e PAN, em vez de BE e PCP. Resta perceber se há condições de entendimento com estes atores, se o BE vai querer subir de tom nas suas reivindicações governativas (o que me parece sempre uma inevitabilidade, mais tarde ou mais cedo), e ainda se o PAN tem interesse em alinhar numa solução destas. Neste último caso, se sim, se se contentará com um papel de apoio ao governo minoritário (ainda que só se tenha conseguido fazer eleger agora) ou se tentará colocar algumas garras políticas mais ambiciosas de fora. As outras duas soluções mais plausíveis estão, a meu ver, no lado da Direita: 1) uma agregação, de facto, da Direita, em que a preocupação primordial passa a relacionar-se com a obtenção da maioria governativa e da agregação de interesses mais gerais ou 2) uma tentativa de agregação mais seletiva, ficando a depender de algumas variáveis. Passo a explicar: a primeira possibilidade é, como é claro, a agregação de todos os partidos que estão mais à Direita nesta hipotética tentativa de projeto comum: PSD, CDS, PPM, Chega e IL. Estes partidos garantiram a obtenção total de 29 mandatos, alcançando uma maioria matemática. No entanto, uma agregação deste nível não se avizinha fácil nem assim tão expectável: a peça bloqueadora ou desbloqueadora, poderá ser o Chega!. As declarações de André Ventura fecharam as portas ao envolvimento deste partido (ainda que saibamos que, na política, muitas vezes, estes tipos de declarações podem caducar no tempo equivalente a um estado de alma). Se o Chega! for retirado da equação de uma hipotética agregação de interesses, fica a questão sobre como este partido se comportará perante a possibilidade de ter de viabilizar um governo de Direita no qual não esteja inserido ou bater o pé aos tais “partidos de sistema” e rejeitar toda e qualquer alternativa, mantendo um caminho isolado no sentido de querer incorporar no Chega a única alternativa, para eles, aceitável; a segunda opção passa por tentar incluir o PAN nesta hipotética agregação, em troca com o Chega!. No entanto, esta opção (mesmo que, inclusive, pudesse fechar portas a mais um ou outro partido) ficaria sempre dependente das abstenções, no mínimo, desses mesmos partidos. Agora, a questão que coloquei face a uma possível aproximação do PAN ao PS e restante Esquerda, também vale para PSD e restante Direita: quando o momento chegar, a quem vai o PAN dar a mão? Não obstante, a resposta a esta questão parece-me ser, sem grande real dúvida, que o PAN tenderá a pender para o lado do PS. Ou seja: nestas duas hipóteses mais plausíveis, a estabilidade não parece vir a ser uma “palavra de ordem”, exigindo enorme capacidade de compromisso entre as partes direta e/ou indiretamente envolvidas. Ainda, penso haver uma restante opção, que consiste numa solução inesperada, envolvendo atores da Esquerda e da Direita, como o CDS, o BE e o PAN, simultaneamente. Ainda que estas situações devam ser sempre olhadas com “desconfiança” (no sentido de serem equacionados todos os possíveis cenários), creio que esta manobra poderia sair muito cara ao CDS, nomeadamente. Por fim, não me tendo esquecido de uma última opção, penso que o estabelecimento de um Bloco Central seria um suicídio gritante por parte do PSD, pelo que me parece absolutamente impensável que tal venha sequer a ser minimamente equacionado.

               Ora, sabemos que, aconteça o que acontecer, há duas ilações (mais e menos óbvias) que podemos retirar: 1) o poder político, nos Açores, está a ser alterado; 2) perante toda e qualquer solução final que se possa encontrar, é verdade que estas devem continuar a ser analisadas pelo prisma regional, podendo não significar algo mais para termos nacionais. Ainda assim, é curioso ver o acompanhamento que estas eleições regionais fizeram perante as últimas eleições legislativas. Do mesmo modo, acabam por lançar o mote para as eleições autárquicas do próximo ano. A meu ver, esta antevisão deve fazer os partidos soarem os seus alarmes, na medida em que devem estar preparados para reagir face a possíveis impasses, originados por fragmentações como esta.

               Uma última nota: já estamos a sentir as consequências do precedente aberto nas eleições legislativas de 2015. De repente, mesmo que o partido vencedor tenha a possibilidade de alcançar uma solução governativa, o ónus de encontrar essa solução já não se apresenta somente em si, por ter sido o vencedor eleitoral. Desta vez, o grupo dos perdedores (em termos objetivos) pode, novamente, virar a mesa.

 

                                                                       Filipe S. Fernandes

 

Somos… a favor, achamos… bem.

24.10.20

Persegue-nos, enquanto portugueses, um fatalismo à entrada de cada fórum internacional. País pequeno, periférico, entalado pela Espanha, ignorado pelo Reino Unido, vítima de paternalismo alemão ou nórdico, dos fundos roubados pelo alargamento a Leste, mesmo das novas prioridades geopolíticas daquele que ainda é o nosso maior garante de segurança. Assim, festejamos a pequenez de derrotas circunstanciais (“podia ter sido pior” e “vai-se andando”) e títulos na imprensa internacional. De sete em sete anos, ligamos aos velhos amigos que vão ficando na Coesão — nossa estratégia para a política externa do século XXI — e damos conta de um saudosismo dos que já foram, agora que só a Grécia partilha connosco a medalha de “Países da Coesão em dois milénios”. Tudo isto a propósito de mais uma cimeira europeia, esta passada também marítima, anglófona, africana e, sem surpresa, orçamental e pandémica.

Guardo um particular desprezo pela ideia de um Portugal das cimeiras Med, que partilhamos com Grécia, Chipre ou Malta talvez por nunca ter conseguido banhar-me em águas mediterrânicas de língua oficial portuguesa —, mas o fruto do meu cansaço continua a ser a pesquisa infrutífera pelas posições portuguesas que visem definir agenda e aumentar a influência política antes do bolo financeiro. Ao contrário dos lamentos recorrentes, dos quais abusei para começar estas linhas, é justo dizer que vivemos a quinta década à sombra da geografia. Nestes, passamos ao lado da crise migratória, das ameaças russa ou até turca, de linhas de fronteira conflituantes ou de qualquer paz frágil, sempre numa confortável boleia para algures nunca pior: um privilégio no nosso continente. Duas gerações, portanto, que se habituaram a um política externa adquirida, imutável, fácil e que elevou o país com base em acasos vulcânicos, navegações multisseculares e, honra lhes seja feita, acertadas opções políticas com quatro décadas.

Ao contrário de tantos outros, temos enquanto país vida suficiente para conhecer o mundo em dezenas de equilíbrios distintos e uma capacidade diplomática provada de o elevar na negociação, o que só reforça a incompreensão pela ausência de uma estratégia político-partidária que adapte aos nossos dias o enquadramento de Portugal na Europa, no Atlântico ou na Lusofonia. A história ensina-nos que não há espaços políticos vazios, há os que esperam para ser ocupados, e, hoje, o Oceano Atlântico enquadra-se neste dito. Portugal tem os ativos geográficos para aí assumir uma liderança de soft power, numa 'Diplomacia de intermediário', que poderia então potenciar à mesa europeia e vice-versa. A partir desse momento, só falta vontade, interesse político e, finalmente, uma estratégia. As transições digital e energética passarão de chavões a marcar a próxima década europeia e, com responsabilidades partilhadas, esse debate não passou ainda por Portugal. Somos… a favor, achamos… bem.

Foi a geografia que nos trouxe uma certa bonomia à mesa com pares. Somos, e bem, mais intermediário do que incómodo e, com um cheque nos momentos certos, os últimos a oferecer resistências. É, por outro lado, esta estabilidade política que nos exige uma individualidade na definição de agenda para o debate europeu. O multilateralismo, nosso maior ativo e (em) risco, parte destas para viver das cedências e dos acordos. Para participar na definição do próximo equilíbrio geopolítico, que ainda estamos para conhecer, Portugal precisa de consolidar estratégias públicas para 1. o Atlântico, que deixará de representar o garante de segurança que conhecemos, com EUA e RU, mas também Irlanda, França, Países Baixos, Dinamarca ou Noruega; 2. para Espanha, França e Alemanha, fundamentais nas dinâmicas comerciais (e políticas, naturalmente), que, salvo a última, correm riscos políticos permanentes; 3. para o Magreb, insegurança europeia no seu estado bruto, que nos passa ao lado até deixar de passar; 4. para o leste da União Europeia, com o qual competimos por investimento direto estrangeiro e que tem hoje um peso exacerbado na definição de agenda desta comunidade; e 5. por último, mas talvez a mais relevante, para a China, Índia e Sueste Asiático, que ultrapassaram a dimensão económica para assumirem implicações urgentes na decisão política, de segurança, tecnológica ou, tão simplesmente, nas liberdades que prezamos.

Há poucas inevitabilidades na definição da agenda europeia e, quando existem, são circunstanciais. Não devemos competir pela centralidade no debate quando estados-membros da UE veem as suas fronteiras ameaçadas, como acontece. Ainda assim, esses são os momentos que fogem à rotina. Nos restantes, aproveite-se a bênção do amplo consenso nacional que tradicionalmente existe em torno da política externa para, no espaço público partidário, imaginar e concretizar estratégias e objetivos regionais, contextualizados ao que Portugal foi, é e pode ser. O risco é sempre o mesmo: chegar tarde, sem nada de novo para oferecer e, pior, com posições ou aliados dúbios; as consequências é que serão, pelo momento vivido, agravadas.

RG

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O Papa Francisco

23.10.20

Desde que foi eleito Papa pelos Cardeais no Conclave em 2013, o Papa Francisco tem sido conotado e adjetivado de “progressista”. Para muitos católicos – e até não católicos -, essa mensagem pegou, principalmente comparando a um Papa - esse sim "católico conservador", dizem – como Bento XVI. Contudo, basta uma pequena reflexão para se perceber que o Papa Francisco é também um conservador.

Para se perceber do que falo, é importante esclarecer dois conceitos, nomeadamente “progressista” e “conservador”. Em termos genéricos, progressista é aquele que professa as ideias do progresso. É aquele que, não só as reconhece, mas como ativamente as promove. Já quando falamos no conservador, há mais dificuldade em definir. Para muitos, e principalmente nos dias que correm, conservador é equivalente – ou quase – a reaccionário. Todavia, e em termos bastante genéricos, considero que “ser conservador” é uma posição pré-política, ou seja, é uma atitude de estar na vida, uma forma de agir e reagir consoante as circunstâncias, ancorada no princípio de racionalidade e moderação, que se traduz no respeito e na atenção pelo que se provou resultar e na evolução daquilo que se provou não resultar.

Posta esta clarificação, no dia 4 de Outubro, foi lançada a Encíclica Fratelli Tutti e, mais uma vez, o esperado aconteceu – muitos foram aqueles que lançaram aos sete ventos que o Papa Francisco é um progressista e só assim a Igreja Católica avançará para o futuro. Contudo, será assim tão progressista? Ou seja, promove assim tanto o avanço da sociedade de acordo com os padrões atuais? Promove reformas estruturais fortes, rompe assim tanto com o status quo em nome do progresso? Se formos analisar as últimas duas grandes posições do Santo Padre friamente, não é isso que parece.

Nesta Encíclica em particular, o Papa Francisco faz uma reflexão sobre o estado do mundo sobre várias perspetivas, alertando que não podemos ficar estagnados enquanto existem avanços no mundo, mantendo sempre uma posição racional, defendendo a moderação e a atenção a avanços desmedidos. Alerta fortemente para os perigos das tecnologias sem ser contra elas. Acautela os desafios que existem com as crises que nos afligem – como a do coronavírus ou refugiados - enquanto faz a defesa do amor pelo próximo – particularmente com a parábola do Samaritano. Estes três exemplos, e há mais que se podem verificar com a leitura deste magnífico documento, não apresentam particular progresso. Existe sim uma reflexão. Um respeito e defesa do que de bom já existe, reconhecendo, ao mesmo tempo, que o mundo não pára e são precisas adaptações. Em suma, o Papa Francisco faz aquilo que outros fizeram antes dele – analisa a situação atual e aplica a doutrina da Igreja, nada mais habitual.

O outro assunto que rompeu de alegria os sectores mais progressistas da sociedade foi o reconhecimento e defesa, por parte de um Papa, da união civil entre casais do mesmo sexo. É fácil de assumir este progressismo do Papa Francisco quando este é um tema quente dentro da Igreja e existem facções dentro da mesma que são absolutamente contra, mas, ainda assim, em linha com o conceito que aqui emprego, não é nada de assim tão progressista quanto se apregoa. Em boa verdade, é uma atitude de um conservador.

A mensagem que o Papa Francisco passou foi uma clara adaptação à realidade. Se analisarmos a situação, o Sumo Pontífice não avançou muito naquilo que já existe. Não teve iniciativa de reformar a Igreja para enquadrar os casais do mesmo sexo. Não defendeu o casamento religioso para eles. Nem sequer tocou no assunto. O que este fez foi uma consideração ponderada. Foi olhar para o que já existe, o que se estabeleceu, o que resulta, e defendeu a sua permanência e protecção. Defendeu, afinal de contas é o líder da Igreja Católica, os valores cristãos, tal como fez na Encíclica supramencionada.

Nesta mensagem, o Santo Padre afirmou que “Eles são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou forçado a ser infeliz por isso”. A isto, acrescentou ainda que “o que temos que criar é uma lei da união civil. Dessa forma, eles estão legalmente cobertos”. Esta posição do Santo Padre não é mais que a adaptação aos tempos que vivemos. Não é mais que uma olhar para a realidade e perceber aquilo que já existe, aquilo que funciona, e tomar uma decisão com base no respeito por isso mesmo. Aquilo que fez foi, com um humanismo transcendental, a defesa do direito à família e ao amor de Deus para todos, tudo valores cristãos.

Esta atitude do Papa Francisco não mostra que ele é “progressista”, não no sentido político que lhe querem atribuir e como muitos querem, forçosamente, mostrar. Esta atitude do Papa é uma atitude pré-política, é uma atitude da maneira de ser, é humanista, moderada e de respeito por tudo aquilo que já conquistámos enquanto sociedade. É olhar para o futuro com os pés assentes na terra, aceitar que o futuro tem coisas boas para nos trazer, mas que é importante também valorizar aquilo que já temos. Em suma, é uma atitude conservadora.

Com isto tudo, há algo ainda mais importante que o potencial progressismo ou conservadorismo do Papa. O Santo Padre é um líder religioso, não político, e, por essa razão, o mais importante é continuar a defender os valores cristãos. Para isso, deve continuar a ser humanista, deve defender a doutrina da Igreja Católica, deve ser ponderado e moderado, e, a cima de tudo, deve garantir que, perante Deus, todos somos iguais e amados por Ele. O Papa, seja ele quem for, não tem que ter a preocupação de mais ou menos progressista, principalmente quando os padrões desse progressismo são desenhados em praça pública.

Aquilo que ele fez foi, antes de qualquer “progressismo” ou até “conservadorismo”, foi ser cristão e, quanto a isso, ninguém o pode condenar, mesmo que se discorde desta posição dele (particularmente aqueles que rotineiramente são chamados de "católicos conservadores"). 

Como o nome da própria Encíclica afirma, o papel do Papa é garantir que somos Todos Irmãos. Nesse aspecto, meus amigos, tenho para mim que o Santo Padre fez um trabalho fenomenal.

 

Nota: É importante clarificar mais uma vez que esta reflexão que aqui faço não tem nada a ver com ação política, mas sim com uma atitude perante a vida. Como deixei claro na definição, é uma defesa do modo de estar dele e contra uma corrente que teima, à força, rotulá-lo de progressista, com conotações políticas e como se qualquer outra posição na vida fosse inaceitável.

 

Pedro

 

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O Conundrum da Direita Portuguesa

02.08.20

Abrindo-se o Observador, ou qualquer colunista de direita, vê-se muito parágrafo e inúmeras linhas escritas sobre a esquerda e os seus males, passando ao lado consecutivamente que às vezes é necessário fazer a própria cama antes de ir criticar o mundo. Vou portanto puxar os lençóis para cima numa tentativa de dormir mais descansada à noite.

 

A razão pela qual o Partido Socialista está com 39% da intenção de voto não se traduz no brilhantismo da atuação do nosso PM, e muito menos na popularidade do seu governo. Tanto a Maria Antonieta socialista, como o ministro da chalaça parlamentar que chama de “fanáticos” a quem discorde do seu trágico manuseamento da pasta da TAP, ao ministro do lítio que agora se transformou na miragem do hidrogénio, não são propriamente populares e considerados eficientes.

 

Assim sendo, pareceria quase intuitivo que os partidos de direita estivessem a desbravar caminho nas sondagens, galopando ofegantes para quase 30%. Contudo, nem combinando a intenção de voto no PSD e no CDS o atingimos.

 

Qual será portanto a razão do desamor do país com o lado direito do espectro? Na verdade é uma questão multifacetada e que incute responsabilidades gerais e específicas aos respetivos partidos.

 

Começando pelos problemas latentes da direita no geral, um dos principais erros é a falta de uma mensagem musculada anti-corrupção. Qual é o sentido de deixar o BE ter o monopólio do discurso quando não pretendem a manutenção e melhoramento do capitalismo como o melhor modelo económico que existe, e que levantou mais pessoas da pobreza, falando, aliás, em acabar com este? Qual é a lógica de deixar o Chega se apropriar deste para a sua bandeirinha populista anti-sistema quando tinham um manifesto copiado de outro partido, altos quadros na lista negra do fisco, e irregularidades no financiamento da campanha das europeias?

 

De facto, na minha opinião, o maior erro da direita democrática é o negar constante do passado colonialista português e as manifestações ainda atuais desse pecado, como aliás se viu com o recente homicídio de Bruno Candé. Entregaram aos agora ex-combatentes armas, disseram-lhes que era “nós contra eles”, terminou-se a guerra e deixou-se estas pessoas sem qualquer acompanhamento psicológico ou sequer com o ónus de desfazer o “nós contra eles”. Um dos resultados foi o homicídio horrífico de um pai de três filhos, português, e com 39 anos. O “nós contra eles” tornou-se o “nós contra nós se tiverem uma tez mais escura”, e não interessa quantas manifestações do movimento 0 se faça, isto existe, e deixar a esquerda pegar num problema e espremê-lo em “Portugal é institucionalmente racista” é um erro que pagamos e iremos pagar consecutivamente, principalmente com as gerações mais jovens.

 

Nos casos dos partidos democráticos de direita, o PSD, o CDS e a IL, combinados não dão a percentagem de votos do PS. O CDS, um dos partidos fundadores da democracia portuguesa, está lentamente a desaparecer, e a passar do novo partido de táxi, para o novo partido de triciclo e podendo mesmo acabar no do monociclo. O conservadorismo popularucho, agro-beto, do status-quo, está a levar lentamente o partido ao oblivium, e a culpa é da nova direção, que seguiu o rumo do bafio, da naftalina, e do conservadorismo do século passado.

 

O PSD, a nossa bela barata tonta, tanto se chega ao Centrão, como à extrema direita. No fundo o Dr. Rui Rio não sabia se queria ser deputado, nem se queria governar, e muito menos quer ser oposição. Queixa-se que a pasta do Novo Banco não foi tratada de forma transparente, e ao mesmo tempo viabiliza o encurtar do tempo de escrutínio parlamentar ao primeiro ministro. Vota consecutivamente ao lado do PS, e depois diz que coliga com o Chega se “este se moderar”. A técnica é óbvia, como não sabe o que anda a fazer, faz um pouco de tudo, tanto o oito como o oitenta, e espera que a média dê mais ou menos para ser reeleito.

 

De seguida, temos a IL. A mensagem do “em Portugal só há liberais ou socialistas”, e do “estão a ver um bolo? Se meterem, tipo, fermento, ele cresce, e resolvemos assim os problemas fundacionais da economia portuguesa” já esgotou as quotas de paciência. Depois da campanha inovadora e caricatural, convinha marcar posições claras sobre, por exemplo, questões sociais, e não deixá-las na ambiguidade para apanhar lapas conservadoras que gostam de mercado livre no casco do navio. Eu sei que dá jeito para fingir uma força liberal em Portugal que pode de facto ser inovadora, mas talvez devessem redirecionar mensagem para captarem a quase totalidade dos liberais, e não ficarem por meias medidas por apregoarem ao cliente errado. Partidos ambíguos caem no desuso e esquecimento.

 

Por fim, e talvez o mais importante, é manter o nível mínimo de ética e integridade. Dir-me-ão, mas se o Chega se moderar, e se for oportuno, não deveria a direita federar-se e tentar tomar de assalto o poder? Não. Não se corre atrás da extrema-direita. Não se compromete com a extrema-direita. A direita democrática não depende da extrema-direita, combate-a, todos os dias. A direita democrática não depende da extrema-direita, porque esta vai e vem, mas a democrática fica, e sempre ficará. Está na hora, portanto, de tirar o microfone da nova moda populista e extremista e trabalhar para merecer o voto de quem dele depende, o eleitorado democrático português.

Adriana F. L Cardoso

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source: pinterest

 

 

 

 

 

 

 

 

Emancipação feminina, mas.

25.07.20

Correndo o risco de erriçar os cabelos dos adolescentes e pubescentes do Twitter, ainda com acne e/ou sem barba, pertencentes às juventudes do Bloco de Esquerda e da Juventude Comunista, porque leram uma vez o Manifesto, e por alto um resumo do Capital, aqui vai: uma reflexão sobre o movimento feminista por uma mulher de direita.

Numa altura em que vivemos uma pandemia mundial, em que foi feita história esta semana no Conselho Europeu, ao assistirmos ao colapso da sociedade americana como a conhecemos, e ao ter sido aprovada uma lei absolutamente autocrática que finda a curta história de “um país, dois sistemas” em Hong Kong, os tópicos mais relevantes permanecem a cancel culture, derrube de estátuas por mobs, mudança de nomes de marcas, e, o mais ridículo de todos, se uma mulher de direita pode ser feminista.

Mas afinal o que é ser feminista? Aqui encontra-se a raiz do problema. Estamos a falar de salário igual para trabalho igual, com todas as nuances de mesmas horas trabalhadas, anos de experiência, produtividade, mandato e mesma posição? Eu diria que é tudo menos um exagero assumir que não só a esmagadora maioria dos homens com um córtex pré-frontal minimamente desenvolvido, como praticamente a totalidade das mulheres concorda com esta afirmação. Tentar fingir que este é o ponto discutível é assumir que as pessoas do outro lado do vosso espectro têm uma dissonância cognitiva grave.

Significa assumir que no ano de 2020 eu defenda de punho do ar numa manifestação na Alameda que por ser mulher estou hierarquicamente abaixo de qualquer homem, que sou vitimizada diariamente em termos de sociedade apenas e só por ter um endométrio, e que faça o que fizer estarei sempre exatamente 0,25 degraus abaixo de um homem no primeiro do lance de escadas? Não, não sou feminista.

Significa colocar posts no Facebook a dizer “yessss girls, girl power” porque milhares de mulheres foram à Women’s March, organizada por uma ativista que chamou ao Farrakhan de “GOAT”, sendo que alguns dos seus maiores hits passam por chamar de cães a homossexuais e de porcos a judeus? Não, não sou feminista.

Significa achar que todas as mulheres, por serem mulheres, têm uma “experiência de vida” que veio em série com o seu útero que faz com que não haja uma única com algo estúpido para dizer? Nem mesmo quando a Emily Ratajkowski colocou um gráfico no Twitter a indicar o Joe Biden como parte da alt-right? Não, não sou feminista.

Significa que tenha como um dos meus maiores exemplos e ícones a Margaret Thatcher, uma mulher que vinda de uma cidade rural e filha de um dono de uma mercearia, ascendeu ao maior cargo político de uma das maiores democracias mundiais numa altura em que nas mesas das grandes reuniões políticas internacionais, e até dentro do seu próprio gabinete, ela fosse a única mulher, e assim estou automaticamente excluída de ser feminista porque a esquerda a considera um monstro? Então não, não sou feminista.

Significa ter como exemplo o movimento sufragista, onde mulheres que eram literalmente um pertence dos seus maridos ou pais, lutaram, algumas com a vida, para que eu possa estar livremente a escrever este texto, possa sonhar ter um cargo político, ter direito a me divorciar, se assim o entender, sem ser marcada como uma meretriz, e votar regularmente e sempre que me é possível? Sim, sou feminista.

 

O pior desta questão nem passa por todas as razões que listei acima. Passa sim pelo argumento basilar do qual muitas feministas partem: todas as disparidades são desigualdades, e qualquer revés que algum membro de um coletivo passe individualmente é causa das características desse mesmo coletivo. Isto não corresponde minimamente à realidade. É óbvio que há pessoas preconceituosas. É até mesmo provável que em algum ponto da minha vida eu sinta que fui descriminada porque sou mulher. Contudo, não cabe na cabeça de ninguém fazer o salto para “o capitalismo é patriarcal e machista, e como vivemos numa sociedade capitalista, a sociedade em si é machista”, ou, “qualquer situação em que um homem seja preterido em relação a mim é por eu ser mulher”.

Voltando à questão inicial e para terminar, sim, uma mulher de direita pode ser o que bem entender. É importante lembrar que no dia a dia, maior parte das pessoas, as que não vivem no Twitter, não perdem horas do dia a decidir se são seja o que for porque alguém fez uma poll a perguntar à sua bolha se dá para haver feministas de direita.

O que aconteceu ao movimento da emancipação intelectual feminina, onde todo o tipo de mulheres, desde as de diferentes etnias, orientação sexual, conservadoras, liberais, de direita, esquerda, se poderiam juntar para defender o mesmo ideal, muitas vezes o único que as unifica, igualdade de género perante a lei? Quando é que entre o sufragismo e a atualidade o movimento se tornou um clube restrito onde só pode entrar quem subscreva à totalidade da ideologia de esquerda?

O feminismo começou como um traço geral e unificador e está se a tornar numa palavra feia pela hiper-visibilidade de uma elite ideológica restrita, que não representa o movimento no geral, e muito menos a generalidade das mulheres.

Dêem-me as vossas AOC, Linda Sarsour e Simone de Beauvoir que eu respondo-vos com as minhas Diana Furchtgott-Roth, Margaret Thatcher e Christina Hoff Sommers.

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Procura-se plano da direita para o país

25.07.20

Calhou ser com um dia de diferença que foram conhecidos o acordo “histórico” do Conselho Europeu e a Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030, de António Costa Silva. A reunião de quatro dias em Bruxelas pode ter sido caraterizada pelas suas lutas internas e declarações mais ou menos desagradáveis, ora direcionadas aos nórdicos ora aos mediterrâneos, mas de uma coisa estaremos certos: contas foram feitas e não terão sido poucas. Ao contrário do acordo europeu, o Plano de Costa Silva não apresenta qualquer número, quaisquer contas, nenhum valor para os gastos – “não me vou meter aí”, justificou.

Ora, necessariamente interligados na prática, devido à “pipa de massa” que a UE enviará para cobrir a grande parte das ideias do Plano pedido pelo Governo, ambos os documentos merecem que a sociedade civil, principalmente os partidos políticos, se debrucem sobre eles, numa análise crítica e que procure potenciar ao máximo o pacote financeiro europeu, que pode muito bem ser considerado uma oportunidade de ouro. E é isso que as atuais lideranças à direita do PS devem fazer, quer de modo a engrandecer os próprios partidos, quer o país. 

De acordo com os seus genes e a sua história governativa, a direita portuguesa contribuiu em vários momentos da democracia para a modernização do país e para o desenvolvimento económico e social. Contudo, perante uma das maiores pandemias mundiais de que há memória e a sua consequente crise económica de dimensões tremendas, a resposta de PSD e CDS não passa, até agora, de um misto de medidas avulsas e de propostas de políticas públicas pouco galvanizadoras. Medidas essas que, sem se integrarem entre si enquanto projeto de sociedade, estão apenas baseadas no mantra repetido pela direita nas últimas duas décadas: menos impostos, menos burocracia, mais digitalização – e fica-se por aqui um plano do atual centro-direita. 

Não é que o plano de Costa Silva tenha muitas ideias nunca ouvidas; são algumas repescagens antigas e outras mais ou menos modernizadas no seu linguajar. No entanto, aventura-se mais que PSD e CDS nas obras públicas, por exemplo, que constituem até hoje a grande fobia da direita. É inexplicável que nem com envelopes financeiros extraordinários haja coragem na direita para se defender obras públicas que ainda hoje fazem falta em muitas partes do país. Ao nível dos transportes públicos, hospitalar, marítimo, tecnológico, entre outros, há todo um leque de problemas que persistem e que justificam a urgência na construção/modernização de infraestruturas. Nem sobre o capital humano me ocorre qual é a grande ideia da direita para o futuro do país; que visão da natalidade e demografia se tem? Qual a estratégia para a formação e trabalho das futuras gerações? 

Veja-se as prioridades do plano de recuperação do governo britânico. Com o lema de “BUILD, BUILD, BUILD”, Boris Johnson – dessa direita que não tem medo de fazer das obras públicas uma bandeira – anunciou um programa de 5 biliões de libras assente na necessidade de construção e renovação de infraestruturas e num país mais green (sim, já sei que nem sequer somos comparáveis economicamente com o Reino Unido, mas a ambição e a visão de futuro estão lá).

É importante que atualmente se faça o debate sobre que país queremos deixar para futuro e, neste momento, é condição essencial aplicar essa visão de forma a não perder qualquer fundo europeu. O pior que poderia acontecer era não aproveitar e não executar todo o dinheiro que nos é destinado pela UE. 

Para setembro está prometido pelo PSD o seu “plano estratégico” para a recuperação económica e também o CDS está a cozinhar um plano de retoma. Exige-se que ambos os partidos vão muito mais além do que têm ido em programas anteriores, que se deixem de dogmas passados e que reflitam profundamente no Portugal que querem deixar para as gerações futuras. A direita pode muito mais do que meros desejos de quatro ou cinco Autoeuropas.

 

Marco António 

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A colaboração democrática é uma falácia.

22.07.20

A lista de coisas piores do que a inércia é muito limitada, mas começa exatamente com o “fazer por fazer e para ontem”. Negar a índole conflituante e combativa que sustenta a Democracia é colocá-la em causa, e é exatamente por isso que a reforma da natureza parlamentar proposta pelo PS e por Rui Rio faz, e bem, manchetes.

As práticas parlamentares têm muito defeitos o primeiro está nas práticas internas aos partidos que geram bancadas que são pouco mais do que claques, seguem as “disciplinas de voto” ou o desinteresse público que impossibilita escrutínio  , mas o Presidente do PSD consegue ter a proeza de nos mostrar o porquê de tantos representantes eleitos terem receio de enveredar pela defesa das reformas estruturais de que precisamos: corre-se o risco de estar profundamente errado na alternativa.

Rui Rio começa por dar a cara por uma reforma (in)conveniente ao Partido Socialista. Nada de novo. A questão verdadeiramente problemática é que hoje coloca em causa princípios democráticos, que só quem não sabe como vai o mundo toma por garantidos. O comandante portuense, há pouco menos de um ano, terminava a sua campanha eleitoral afirmando que “não tinha particular entusiasmo em ser Deputado”, abnegando a missão de representação popular, que os eleitores do distrito do Porto lhe viriam a conceder (só num sistema eleitoral de listas fechadas é que alguém pode dizer isto e ser eleito, mas aí o problema é para outros livros). Ora, já devíamos ter desconfiado. A base de qualquer Democracia digna desse nome está e estará naquele órgão onde cidadãos eleitos por pares se sentam para discordar, contestar e fazer valer as suas alternativas: o Parlamento. 

Tudo isto se opõe ao que Rui Rio pretende fazer do nosso sistema partidário, com sonhos alemães inadequados e desconhecedores das vulnerabilidades que ainda apresentamos nestes domínios ou daquilo que é o caminho político que percorremos. Entre oposição destrutiva e colaboração desmedida, ainda não encontrou aquilo que deve existir enquanto requisito mínimo de qualquer governação de base num sistema de sufrágio livre e universal: a apresentação de alternativas claras e, a seu tempo, o encontrar de compromissos. O Presidente do PSD abdicou da apresentação de alternativas em prol de reformas expeditas. Pois, mas a pressa e a perfeição têm uma história conjunta. 

Por mais contranatura que pareça, a política credibiliza-se exatamente com uma avaliação clara, regular e dura das capacidades e prioridades de cada representante eleito e com a sequente sobrevivência dos mais capazes. Isso só pode acontecer se as suas falhas e dos seus forem expostas de uma forma ruidosa e regular. Os representantes políticos são-no para serem substituídos ciclicamente — a reforma certeira também já está na mesa por outro caminho: é a limitação de mandatos parlamentares. Serviço, não vida.

É neste contexto que devemos repetir até à exaustão que a colaboração interpartidária em Democracia é uma falácia; se não o fosse, pelo menos um dos partidos envolvidos não faria falta. O que falta sim é o encontrar do compromisso algures entre trincheiras (das ideias e dos ideais), após apresentação de visões necessariamente divergentes. Os grandes partidos do centrão, pelo menos, têm a responsabilidade de chocar, negociar e procurar alcançar um compromisso, por esta ordem e sem saltar etapas, sob o risco de o espaço de conflito ser reocupado de forma menos magnânima. Os projetos comuns, importantes pela estabilidade quando existem, são negociados pré-eleitoralmente com base na existência de terrenos comuns e vontade de alcançar… exatamente, compromissos. Com governos minoritários: cedências, de parte a parte e no seu momento.

O que esta reforma propõe é que se desista da Assembleia da República e seu “circo desprestigiante” enquanto incómodo à Governação, mas o que o “Interesse Nacional” pede é o prestigiar da mesma, como menos bobos ou malabaristas. Não sejam preguiçosos.

 

RG

 

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